Entendendo os Rótulos de Tinta a Óleo

Muitos artistas ignoram as informações contidas nos rótulos de tinta, mas elas nos ajudam a compreender  profundamente o produto a ser usado em nossas pinturas. É de suma importância compreender plenamente esses avisos, códigos e números, pois nos dão pistas sobre a qualidade dos pigmentos, sobre a competência do fabricante, se a cor que escolhemos irá se comportar da mesma maneira em marcas diferentes, e muitas outras razões vantajosas. Saber como ler as informações contidas nos rótulos (ou identificar a falta delas) nos poupa tempo, pode evitar procedimentos desastrosos e até significar economia. Foi com isso em mente que desenvolvemos esse breve tutorial. 
 
1. Avisos de Tóxidade
Os selos de certificação da ACMI (Art & Creative Materials Institute) atestam conformidade do produto de acordo com a norma de padronização internacional D 4236 da ASTM (Standards Worldwide). Para produtos artisticos não tóxicos leva o selo AP (Approved Product), e para produtos que contém algum tipo de substância tóxica, o selo CL (Cautionary Label). A maioria dos produtos norte americanos passa por uma avaliação da ACMI, por isso, quando for adquirir um produto dos EUA, é sempre interessante procurar por esses selos, e caso encontre o selo CL, sempre usar o produto com bom senso e cuidados adicionais.



Approved Product e Cautionary Label


No caso de materiais europeus, alguns também são avaliados pela ACMI, comumente os britânicos. No Brasil, a maioria das marcas classificam todas as suas cores como produto tóxico, pois todas as cores, sem exceção, levam o aviso “Atenção: produto nocivo” ou “Manter a embalagem fechada e fora do alcance de crianças” em todos os rótulos, em todas as marcas. Talvez essas marcas considerem que o óleo de linhaça refinado a calor e os estabilizantes usados nas cores sejam nocivos a ponto de considerar tintas feitas com pigmentos não tóxicos como materiais nocivos.

2. Nomes Fantasia
As primeiras informações contidas nos rótulos é o nome da cor, que chamaremos de “nome fantasia” ou “nome genérico”. Como exemplo, “amarelo ocre ouro”. Abaixo do nome, nas marcas não provenientes de países de língua inglesa, é comum encontrar uma versão em Inglês, ou outra língua, para o nome da tinta.

3. Variações de Cores
Algumas cores, mesmo levando exatamente o mesmo nome, mostram surpreendentes variações de tonalidades. Tomemos o exemplo do “amarelo ocre”. Existem duas versões para esse pigmento, uma natural e outra sintética. O mineral, encontrado na natureza, pode variar drasticamente, indo do amarelo esverdeado até o amarelo avermelhado. As formas sintéticas são mais parecidas, mas ainda assim, mostram diferenças. Em outro caso, como a cor “sombra queimada”, algumas marcas usam combinações de vários pigmentos para “emular” a cor verdadeira, como a Corfix, que usa uma combinação de pigmentos sintéticos para emular esse pigmento mineral. O comportamento da tinta, nesse caso, é muito diferente daquele obtido com o pigmento natural. Portanto, lembre-se: só porque duas tintas de marcas diferentes levam o mesmo nome não é indício de que fazem uso do mesmo pigmento. Isso não quer dizer que sejam melhor ou pior, mas com certeza, diferentes.

4. Nome de Componentes Químicos e Minerais
Geralmente, abaixo do nome fantasia, ou no verso do rótulo, encontram-se nomes químicos, como “Oxido de Ferro Sintético”. São esses nomes que mostram quais os componentes químicos ou substâncias minerais que formam o pigmento. 

Nome químico

É importante reconhecer e entender as características inerentes a essas substâncias. No Brasil, nenhuma das marcas de tinta óleo traz em seus rótulos os nomes dos pigmentos. Isso é algo que muitos artistas brasileiros desejam há um bom tempo.

5. Código de Pigmentos
O segredo para escolher cores está sempre no código de pigmentos, e não nos nomes genéricos. Esses códigos são controlados e identificados pelo Index Internacional de Cores da SDC (Society of Dyers and Colourists). A maioria das tintas estrangeiras levam os códigos internacionais, que são de fato, as informações mais importantes para um artista. No Brasil, somente a Corfix faz uso dos códigos. Muitos artistas simplesmente deixam de comprar tintas que não possuem esses códigos, pois sem eles, não há como saber que tipo de pigmento existe na tinta, não há como adivinhar como ela se comporta, se é sintética ou natural, ou se a cor é formada por um único pigmento ou um conjunto de vários outros. Diga não para tintas sem códigos de pigmentos. Abaixo, veja como eles são, e como le-lôs.

Código de pigmento
 
Código:  PR254 
 
P = A primeira letra, sempre será um P, sendo que as tintas a óleo só podem ser feitas com pigmentos e nunca com corantes, pois os mesmos não são permanentes.
R = As letras após o P, sempre estarão relacionadas com a cor da tinta, nesse caso, Vermelho (Red). Em outros casos: Amarelo (PY), Azul (PB), Branco (PW), Preto (PB) e assim por diante.
254 = Os números identificam qual é aquela cor dentro do Index Internacional de Cores, ou, qual sua formula química.
 
A melhor forma de escolher sua tinta, e de reconhecer o pigmento desejado em outras marcas, é lembrando seu código do index internacional de cor. É muito seguro apostar nos códigos, pois existem poucas exceções a essa regra, como exemplo, o PR101, que corresponde a um pigmento que varia drasticamente sua cor dependendo de sua procedência, portanto nesse caso, é comum encontrar uma infinidade de variações muito diferentes que usam exatamente o mesmo código, PR101, mas as cores são sempre outras, variando de vermelhos claros até marrons escuros.

6. Transparência e Opacidade

Por incrível que possa parecer, alguns artistas ignoram que as tintas possuem muitas diferenças além de sua cor. A falta de conhecimento dessas diferenças pode levar a muita perda de tempo durante a execução de um trabalho. Existem tintas transparentes, semi-transparentes (ou semi-opacas) e opacas. 90% das marcas, nacionais e estrangeiras, levam no rótulo uma legenda que diferencia essa propriedade. No Brasil, somente a marca Águia não possui legendas nos rótulos. 

Legendas

 

A forma mais usada para indicar a transparência das tintas, é a legenda de um quadrado vazio para as tintas com pigmentos transparentes, um quadrado meio cheio (na transversal) para tintas com pigmentos semi-transparentes e um quadrado inteiramente preenchido para pigmentos opacos. É importante lembrar que uma tinta transparente certamente \”cobre\” uma área com mais dificuldade do que uma tinta opaca, pois a natureza do pigmento opaco oferece maior poder de cobertura. Ambas possuem finalidades distintas e não devem ser consideradas como melhor ou pior. As tintas transparentes são ideiais para veladuras, somando a nova cor com aquela que se encontra por baixo, criando um efeito ótico, enquanto as opacas servem para cobrir por completo, apagando áreas que devem \”sumir\” por debaixo da nova cor aplicada.

7. Permanência
Existem pigmentos que possuem grande resistência ao tempo, e que por muitos anos não mudarão, não apresentarão mudanças na cor. Outros pigmentos são particularmente sensíveis a luz e a mudanças de temperatura, e acabam por clarear, desbotar ou mudar de tonalidade. Esses, são pigmentos mais baratos, e que suprem a necessidade para tintas de artesanato ou que são empregadas em trabalhos feitos para durar pouco tempo. Hoje em dia, a maioria dos pigmentos modernos tem excelente permanência, mas ainda existem certas marcas que insistem em usar exceções a essa regra. 

Legenda de permanência

Para identificar as cores permanentes das cores fugitivas, diferentes marcas usam de diferentes sinais. Existem três diferentes “níveis” de permanência. Os níveis, ou índices de permanência, geralmente são identificados por estrelas, ou asteriscos. Três estrelas representa um pigmento de maior permanência do que 2 estrelas, e assim por diante. É o caso da Corfix, Gato Preto, Pebeo, Maimeri, Gamblin e muitas outras. Outras marcas usam diferentes símbolos, como “+” ou até mesmo letras (Talens), quanto maior a quantidade de símbolos, maior a permanência. Tintas que carregam um índice de permanência igual a 1 (um), são consideravelmente inpermanentes, e tendem a desbotar ou mudar de cor com muita facilidade se em contato com luz abundante. Os pigmentos com índice 2 (dois) também desbotam e mudam de cor, como o caso do “violeta escuro” da Corfix. As condições para que isso aconteça são extremas, mas a longo prazo, tudo é possível. É sempre melhor precaver-se, e usar somente pigmentos com nível de permanência 3 (três).

8. Veículo Usado
Algumas marcas costumam variar o veículo, ou aglutinante, usado para a dispersão de pigmento, isso é, o óleo usado na tinta. Caso não encontre nenhuma indicação no rótulo, é invariavelmente o óleo de linhaça alcalí (ou Alkalí), refinado a calor. Nos casos em que o óleo é outro, o fabricante costuma discriminar no rótulo qual é o óleo usado. As variações mais usadas são o óleo de papoula, nozes e cártamo, principalmente nas tintas brancas e cores claras. Nenhuma tinta nacional faz uso de veículo que não seja o óleo de linhaça refinado a calor.

9. Quantidade de Pigmento e Linhas Estudante/Profissional
Uma característica de suma importância é a relação pigmento, óleo, estabilizantes, adulterantes. Certas marcas que adicionam menos estabilizantes e adulterantes acabam por alcançar um status de tinta profissional, enquanto outras marcas usam menor quantidade de pigmento e grande quantidade de adulterantes, e são consideradas tintas de estudante.

Mesmo classificando as tintas entre estudante/profissional, dentro da linha estudante é possível encontrar tintas de qualidade e tintas de baixa qualidade, e o mesmo acontece na linha  profissional. De forma que algumas tintas de estudante possam se equiparar a algumas tintas profissionais, e assim o inverso. Como exemplo, algumas cores da linha Natural Pigments (profissional) se equiparam a algumas tintas da Winton (estudante), enquanto outras cores são melhores ou piores. Tintas da linha estudante que se comparem as de linha profissionais são mais difíceis, mas existem casos, como algumas cores da Maimeri Classico, que se equiparam a tintas profissionais com preços de linha estudante. Existem algumas cores da Corfix que se aproximam ao nível de qualidade da Mamieri Clássico, que por sua vez, é quase uma tinta profissional, enquanto em algumas outras cores, possuem receitas duvidosas, fazendo uso de várias misturas de pigmentos inadequados.

Portanto, não é correto afirmar que toda tinta de linha estudante não é recomendada, assim como entender que toda tinta de linha profissional é excelente. Infelizmente, nos rótulos não existem indicações das proporções de veículo/pigmento, levando o artista a ter de descobrir através de experimentação quais são as tintas com maior pigmentação.

A maioria das marcas estrangeiras possui duas ou três linhas de tintas a óleo. Como exemplo, a marca Talens possui três linhas de tintas: Amsterdam, uma tinta linha estudante; Van Gogh, uma linha intermediária; Rembrandt, na linha profissional. Cada uma possui considerável diferença de poder de pigmentação e em opção de cores, e entre algumas cores das linhas Amsterdam e Rembrandt é notável a diferença até mesmo no peso dos tubos.

Existem algumas marcas que excedem em qualidade, essas, não possuem paralelos, mas existem diferenças de qualidade de cor para cor mesmo nessa linha de tintas “excepcional” ou “premium”. Não é necessário dizer que os preços dessas marcas são proporcionais a seu nível de qualidade. Alguns exemplos são a Michael Harding, Old Holland, Mussini e Vasari. As marcas brasileiras não oferecem linhas diferenciadas de tintas, talvez por que não haja público suficiente que esteja disposto a pagar caro por tintas de qualidade superior. No entanto, dentre as marcas encontradas no mercado, a Corfix é a que oferece a maior quantidade de cores, códigos de pigmentos nos rótulos, diferentes tamanhos de tubos e cores de qualidade estudante aceitáveis, portanto, é a mais indicada entre as marcas nacionais.

Abaixo, uma conveniente lista com as marcas de tintas mais populares e suas determinadas categorias. A lista foi preparada por nós, com ajuda do amigo e expert em tintas Jim Harris, dos EUA. Todas as marcas brasileiras se encontram na linha estudante. Em futuros posts pretendo analisar em profundidade as marcas nacionais. É importante notar que, essa lista é baseada em nossa experiência empírica com essas marcas e não na classificação que cada empresa dá a sua própria tinta. Por exemplo: embora a Talens considere a sua linha de tinta Van Gogh uma linha profissional, nessa lista, ela é considerada uma tinta de linha estudante, pois segundo nossa experiência, essa é a qualidade da linha em questão. O mesmo pode ocorrer com outras marcas.

ESTUDANTEPROFISSIONALPREMIUM
Louvre (Lefranc)
Amsterdam (Talens)
Van Gogh (Talens)
Permalba
Winton (W&N)
Maimeri Classico
Lukas Studio
Richeson Shiva
Gamblin
Georgian (Daler Rowney)
Pebeo
Gato Preto
Acrilex
Corfix
Artist´s Oil (Lefranc)
Lukas 1862
Holbein
Sennelier
Artist´s Oil (Daler-Rowney)
Rembrandt (Talens)
Daniel Smith
Artist´s Oil (W&N)
Grumbacher
Zecchi
Robert Doak
Maimeri Puro
Akademie (Schmincke)
Williamsburg
Old Holland
Michael Harding
Mussini
Blockx
Vasari

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BIBLIOGRAFIA
LAURIE; A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967. MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847.  

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