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Os Materiais de Pintura e os Velhos Mestres

Em 2005, começei a pesquisar seriamente as substâncias usadas na cozinha da pintura e seus diferentes comportamentos. Alguns pintores não parecem muito interessados nesse assunto, mas sempre tive a opinião de que conhecer minuciosamente os materiais poderia me ajudar a controlá-los de maneira mais eficiente, e a descobrir novas maneiras de pintar, novas expressividades. Além disso, a investigação, seus resultados e pequenas descobertas, são um bônus a parte, pois além de achar o assunto interessante, o próprio método científico tornou-se grande fonte de prazer e satisfação pessoal. Pesquisar tornou-se um hábito saudável e produtivo.
Reologia: óleo cozido com litargírio


Uma das grandes questões dentro do estudo dos materiais da pintura a óleo são os veículos usados para a fatura de tinta ou de mediums. Responsáveis por dar mobilidade a tinta, reside aqui, a chave para obter resultados plásticos que nos ofereçam infindáveis qualidades de expressão. É natural que artistas, restauradores e profissionais das artes ficassem intrigados com os procedimentos e os materiais da antiguidade. Afinal, como podemos explicar de que maneira um ser humano conseguiu obter o volume e o impasto expressivo das pinturas de Rembrandt? Pouquíssimos pintores conseguiram alcançar o nível de expressividade que esse mestre, mesmo com todas as opções de materiais e a riqueza de informações que temos hoje. E as obras assustadoramente excepcionais, em todos os quesitos, não param somente em Rembrandt, mas em Caravaggio, Rubens, Tiziano, Ingres, David, Vermeer, Goya e muitos, muitos outros.

Portanto, há vários séculos, profissionais da área estudam, analisam e fazem conjecturas sobre as técnicas e os materiais dos pintores da antiguidade. Não somente pela qualidade estética e técnica de suas obras, mas também pela sua durabilidade como objeto. É comum notar nos museus e galerias, obras modernas mostrando craquelados avançados ou algum indício de má condição. Me lembro especialmente de alguns quadros de Tomie Ohtake, expostos na Estação Pinacoteca, onde algumas passagens de empaste apresentavam fissuras de um a dois milímetros, e trata-se de uma pintura muito jovem, feita há 30 anos atrás. Também me lembro de pelo menos uma tela de Nuno Ramos, na Pinacoteca do Estado, onde, para minha surpresa, encontrei pedaços da obra no chão. Entendo que a proposta desses artistas, principalmente de Ramos, sejam processuais e até mesmo conceituais, no entanto, minha opinião é a de que comercializar obras que craquelam ou desmancham pode parecer descaso a certos olhares, um desrespeito ao cliente ou instituição.

Algumas obras só não se mostram piores pois passam por agressivas restaurações, muitas são cuidadas a tempo de que o público não testemunhe o estrago. Já ouvi, de fontes extra oficiais, apesar dos colecionadores e galerias não divulgarem públicamente, sobre as condições dos quadros de Jackson Pollock, pintados com tinta automotiva: os mesmos estariam descascando, os \”fios\” escorridos tão característicos de suas obras estariam descolando dos suportes.  Também é notório no meio da restauração o estado de conservação a qual se encontravam algumas obras de Sir Joshua Reynolds, hoje a maioria restaurada, pintor inglês que estudou e experimentou diversos mediums e procedimentos, principalmente aqueles sugeridos por Jacques Maroger, tentando emular a técnica dos Velhos Mestres.

É claro que nenhum artista deseja lesar seus compradores ou comprometer a vida útil de suas obras. No entanto, estar atento aos resultados dos últimos estudos na área da conservação é sempre interessante, e pode alertar o artista a técnicas e materiais potencialmente perigosos. Se interessar por todos os materiais, e pelo seu estudo, também é responsabilidade dos artistas, algo tão importante quanto a genialidade por trás dos conceitos e das técnicas.

É nesse sentido que os Velhos Mestres chocam aqueles que estudam a pintura: As obras de alguns mestres, como por exemplo, de Jan Van Eyck, apresentam condições de conservação miraculosas, praticamente como se tivessem sido pintadas ontem, mesmo depois de 500 anos. Nem todos os quadros de Rembrandt chegaram aos dias de hoje conservados como se tivessem sido pintados hoje, mas muitos retratos apresentam notável conservação, e principalmente no caso desse artista, que usava empastos grossos, é interessantíssimo entender e estudar seus procedimentos e materiais. É por isso que estudamos e nutrimos uma inquietude obsessiva quanto a esses procedimentos antigos. Que tipo de técnica ou materiais podem produzir resultados de conservação tão desejáveis quanto a esses?

Inúmeros autores de tratados de pintura, restauradores, curadores, artistas e estudiosos procuraram, através de incontáveis maneiras, entender e descobrir qual seria o “segredo” dos Velhos Mestres. No entanto, na corrida por alcançar essas informações, alguns acabam dando a impressão de que esses materiais da antiguidade não somente podem garantir a longevidade das obras, mas também seriam o segredo de se pintar magnificamente. Alguns tratados e obras desses pesquisadores até possuem uma atmosfera de “teoria da conspiração”, onde há sempre a esperança de revelar o “segredo” miraculoso da preparação de seu medium e quais técnicas empregavam nas pinturas, pois os mesmos poderiam levar qualquer pessoa a pintar como um pintor da antiguidade.

A descoberta do exato procedimento e materiais desses mestres certamente pode ajudar a entender como algumas dessas obras permaneceram tão saudáveis até nossos dias, mas dizer que podem melhorar diretamente a pintura daqueles que fizerem o uso de tais procedimentos e segredos é um exagero. Infelizmente, o veredicto é um só: não há segredo. Não há material, medium, resina ou técnica que fará qualquer pessoa pintar como Vermeer ou como Frans Hals. Esses mestres alcançaram o ápice técnico da maneira como qualquer outra pessoa alcançará: pela dedicação, disciplina, amor e um profundíssimo interesse em evoluir, em transcender.

 

Diferentes óleos: reação ao sol



No entanto, o estudo dos materiais e das técnicas usadas pelos Velhos Mestres é deveras pertinente, e o pintor não deveria dar as costas a essas informações de grande valor. Por exemplo, sabemos que as experimentações de Joshua Reynolds com os mediums de Maroger deixaram suas obras em um estado de conservação não muito invejável. Também sabemos que o pigmento chamado de Esmalte, usado por Rembrandt, causou craqueluras nas obras em que o pintor fez uso de tal material. Com essas informações, sabemos alguns dos materiais que não deveríamos usar. Apesar do miraculoso segredo obscuro não existir, os Velhos Mestres nos deixaram pistas muito valiosas, que podem melhorar a produção de qualquer artista, não somente na conservação da obra, mas em termos práticos de procedimentos. Tudo está lá, só é preciso saber onde procurar. A seguir, detalho com qual finalidade essas informações são essenciais a qualquer artista:

Em primeiro lugar: obter uma técnica que nos dê obras com longa vida útil, conservando suas cores puras, brilhantes e intensas, sem craquelar ou rachar. Isso está ligado a dois fatores, qual tipo de materiais usamos, e de qual forma usamos os mesmos. Existem inúmeros tipos de óleos secantes (existem óleos não secantes, como o azeite, e óleos secantes, como o óleo de linhaça), esses, podem ser produzidos de várias formas. É importante que o óleo tenha certas características de qualidade, e mais importante do que isso: como se dá a aplicação desse óleo, tanto em seu uso para dispersar pigmento e fazer tintas, quanto em seu uso como medium. Outros fatores de suma importância: a escolha de pigmentos ou tintas adequadas, a escolha de cores da paleta e como se usam essas cores, isto é, como o pintor aplica essas cores na construção de sua obra e finalmente, a superfície a qual usamos como suporte para a pintura

Experimento: Comportamento de cor

 

Em segundo lugar: entender quais são os materiais mais adequados para cada tipo de técnica ou procedimento. É possível cortar um queijo com uma colher, embora tenhamos certa dificuldade durante o procedimento, e embora ele inevitavelmente apresente uma aparência desagradável, ou feia, após a tarefa. Mas se fizermos o uso de uma ferramenta própria para essa simples tarefa, não só teremos menos esforço em fazê-la, como a aparência do serviço será de acordo com o que se espera: totalmente adequado. O mesmo acontece na pintura. Para obter uma pintura lisa e sem as marcas do pincel, obtendo um efeito de grande difusão das cores, é impossível fazê-lo sem o uso do óleo de sol, ou do óleo polimerizado. Dessa forma, o pintor que faz uso de qualquer outro material, perderá muito tempo, e ainda corre o risco de obter resultados indesejáveis. O uso do material correto economiza-nos tempo e nos dá garantia de obter resultados previsíveis e adequados.

A maneira correta de alcançar esses objetivos é de fácil alcance à aqueles que se dedicam a entender mais sobre seus materiais, e principalmente à aqueles que buscam informação e inspiração nos procedimentos usados na antiguidade.

Em futuros posts, pretendo me aprofundar mais nesse tópico específico, e mostrar com detalhes alguns desses procedimentos.

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