Bases para Pintura

Adição de nota em Fevereiro de 2021:
Esse artigo foi escrito dez anos atrás. Ao longo desse período, percebemos aspectos que poderiam ser melhoradas nas receitas apresentadas aqui e assim, atualizamos todas as informações. Se voce anotou essas receitas antes de fevereiro de 2021, sugerimos que substitua as receitas pelas informações que estão agora no ar, elas cobrem mais facilmente os suportes, além de outros benefícios.
 
As “bases” para pintura além de servirem como camadas isolantes, para evitar que a tinta entre em contato com o tecido ou a madeira do suporte, também servem para eliminar a textura do tecido e resultar num suporte mais liso. Geralmente usam algum derivado de calcite, gesso ou carbonato de cálcio como substância inerte principal e algum veículo que serve para espalhar e envolver os ingredientes inertes, como água, óleo ou algum tipo de cola. 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Na imagem acima, é possível ver o resultado de duas pinturas feitas por cima de duas bases diferentes. Ambos os suportes são painéis de MDF com tecido de linho colado a superfície, com duas bases distintas aplicadas por cima do tecido. O MDF é um material que incha e sofre deformações com o tempo. É barato, mas não deve ser usado caso o artista queira maior durabilidade. Nesse caso, o compensado naval é uma melhor escolha, aqui no Brasil.

A esquerda, a base “moderna” de gesso acrílico industrial. A direita, uma base tradicional feita com cola de proteína e gesso crê. Os pigmentos, medium, pincéis e procedimentos técnicos usados foram exatamente os mesmos para ambas pinturas, no entanto, a diferença no resultado é notável. Na verdade, as telas ao vivo mostram as diferenças de maneira ainda mais marcante.

Vamos examinar os dois tipos mais populares de bases: a base “moderna”, feita com o gesso acrílico industrial e dois tipos de bases mais tradicionais, feitas através da mistura de cola animal e derivados de calcite.

1. Diferença nas “Matérias Primas”
É importante lembrar que existem inúmeras fontes diferentes de alvaiade, carbonato de cálcio e cola animal. Os materiais podem variar largamente e apresentar resultados díspares. Como exemplo, o alvaiade: é possível encontrar o produto sendo a base de chumbo, zinco, dióxido de titâneo e até mesmo como “pó de giz”. O nome alvaiade parece ser empregado em uma infinidade de substâncias em forma de pó que são usadas para clarear misturas. É possível que o artista, ao encontrar o material, não ache em seu rótulo nenhum tipo de indicação sobre a natureza química do produto, e dessa maneira, não tenha como saber qual sua real estrutura física/química. No entanto, qualquer um desses materiais irão nos servir. Só é necessário lembrar que: só é possível alcançar as mesmas características apresentadas aqui ao usar os MESMOS materiais empregados em nossos experimentos.

O carbonato de cálcio não costuma apresentar grandes mudanças de acordo com sua procedência, alguns se comportam de maneira um pouco diferente, absorvendo menos ou mais o veículo. O gesso crê costuma apresentar alguma diferença quanto ao modo como absorve veículo, portanto, é necessario fazer algumas adaptações das receitas em alguns casos, mas a diferença nunca é expressiva. As colas animais são os produtos comentados aqui que mais diferem um dos outros. Tendem a mostrar diferença de densidade, aderência e principalmente em seu poder como adesivo. Portanto, é válido lembrar que mesmo reproduzindo um processo através de uma receita, os produtos potencialmente podem ser diferentes e assim apresentar resultados um pouco díspares, a não ser que se adquira materiais com a mesma procedência e sempre frescos.

2. Pequenas variações não propositais no Procedimento
Uma simples mudança no procedimento, como acrescentar a cola em temperatura levemente diferente, variar o tempo usado para misturar os agentes inertes na cola e outras ações que possam passar por despercebido. podem alterar o resultado de algumas das características do suporte como tempo de secagem, aderência, cor, etc. Portanto, é preciso observar e registrar os procedimentos com muita atenção e tentar entender as diferenças que causam essas mudanças.

3. Base Moderna (Gesso Acrílico)
Essa é a base mais indicada para quem não quer complicação ou surpresas. O gesso acrílico vem pronto de fábrica e não costuma dar problemas se aplicado corretamente. O produto é elástico e muito seguro.

Antes da aplicação do gesso, é necessário aplicar pelo menos duas demãos de cola PVA, deixando secar bem cada uma dessas demãos. Essa encolagem é o que tornará a base menos absorvente. Em ainda outro artigo, há uma explicação detalhada sobre como preparar uma base descomplicada, com materiais de fácil acesso em qualquer loja de materiais, parecida com essa apresentada abaixo: preparação de tela.

Em seguida, é a vez de se aplicar o gesso acrílico, também chamado “base acrílica”. O tempo de secagem do gesso é algo entre 25 a 50 minutos, dependendo da umidade relativa do ar e temeperatura, assim como quantidade ou grossura da camada aplicada. É necessário de 3 a 4 demãos aplicadas com uma trincha larga para cobrir a textura do tecido comumente encontrada nas telas brasileiras. A quantidade de demãos pode variar dependendo da espessura de gesso que é usado. As telas importadas, geralmente de linho, que apresentam tramas mais fechadas, apresentam resultados mais lisos com somente 2 ou 3 camadas, dando menos trabalho. Necessário esperar que cada camada seque completamente para que as próximas sejam aplicadas.

O gesso acrílico é denso e tende a deixar marcas de pinceladas, portanto, a adição de um pouco de água é fundamental para tornar a mistura mais líquida e garantir que o gesso nivele, desaparecendo com os sulcos deixados pelas cerdas da trincha. Lixar as camadas entre demãos é infrutífero, pois o polímero acrílico do gesso exerce resistência considerável. Caso o lixamento seja desejado, para tornar o processo possível, o melhor é borrifar um pouco de água sobre a superfície com um atomizador. A superfície final, quando seca, é extremamente lisa e de um branco frio. A película resultante de uma demão é muito elástica e resistente.

É a base ideal para telas, por ser mais elástica do que a base tradicional de gesso crê. A base de gesso acrílico é menos absorvente do que a base tradicional (2) é mais absorvente do que a base tradicional com óleo (3).

4. Base Tradicional Absorvente 

1 parte Cola de Pele de Coelho
1 parte Alvaiade (ou Branco de Titâneo)
2 partes de Gesso Crê (ou Carbonato de Cálcio)

Essa receita é mais indicada para painéis de maderia. Não faça uso dessa receita em telas de tecido ou suportes flexíveis.

Além de mais  dispendiosa, essa base também exige um trabalho consideravelmente maior para fazê-la, do que a base de gesso acrílico. Se voce nunca fez uma base tradicional antes, recomendamos que faça alguns testes antes, em algumas placas de madeira para ver se os resultados são satisfatórios, pois esse tipo de base racha facilmente quando não preparada da maneira certa.

É necessário saber fazer a cola de protéina de modo adequado, caso contrário, a cola se torna muito fraca ou muito forte, e nesse caso, a base pode rachar. Leia nosso artigo sobre como fazer a cola de proteína. É importante que essa base não seja usada em telas, mas em painéis de madeira, por ser menos flexível. Para entender melhor como construir um painel para pintura, leia nosso artigo painéis para pintura.

A base tradicional demora mais a secar do que o gesso acrílico, entre 60 minutos a 120 minutos (dependendo da quantidade usada e da temperatura ambiente). As marcas das cerdas do pincel usado são nivelas mais rapidamente do que o gesso acrílico, resultando numa superfície um pouco mais regular, o que ajuda um pouco quando necessário lixar o suporte, mas não é um atributo expressivo. Foi necessário pelo menos 3 demãos (finas) para cobrir os veios da madeira de modo a não mostrar sua textura e adquirir um acabamento liso. Lixar é muito mais fácil do que o gesso acrílico, principalmente quando usamos lixas grossas para desbaste. A superfície final, quando seca, é amarelada. A película resultante de uma demão é menos elástica e levemente mais porosa do que o gesso acrílico.

Não faça uso de secadores para acelerar a secagem. Não coloque os suportes no sol, ambas situações produzem rachaduras.

4.1. Diferença Expressiva nos Painéis
As pinturas feitas sobre painéis de gesso acrílico resultam numa superfície onde a tinta oleosa conserva completamente seu brilho e viscosidade, mostrando claramente os sulcos deixados pelo acumulo de tinta nas bordas do pincel. As pinturas feitas sobre painel com a base tradicional com cola animal mostra uma leve perda de brilho, tornando-se mais opaca e com a pincelada menos aparente. 

5. Base Tradicional Semi-Absorvente

1 parte Cola de Pele de Coelho
1 parte de Óleo de Linhaça Refinado (Alkalí)
2 partes de Gesso Crê
Opcional: 1 parte Alvaiade (ou Branco de Titâneo)
 
Adicione o gesso crê na cola animal e tenha certeza de que a mistura não fique nenhum grupo de gesso empelotado, mexa incansavelmente para que fique bem homogêneo. Adicione vagarosamente o óleo de linhaça até que tudo seja encorporado lentamente.

 

Essa base é indicada para aqueles que preferem uma base mais tradicional, mas é necessário que se faça adequadamente não só a receita da base quanto a cola de proteína, para que fiquem com a resistência correta. Colas que foram feitas muito forte ou muito fracas podem facilmente rachar a base da pintura. Essa segunda receita é mais elástica do que a primeira, oferecendo maior resiliência e melhor comportamento quando usada em telas, portanto, pode ser usada tanto em telas quanto em painéis. No entanto, lembre-se que a base deve ser feita de modo adequado. Qualquer engano na fatura dessa base trará consequencias a durabilidade da base. Portanto, ela não é uma base fácil de se fazer, exige tempo, atenção e paciência. 

É muito importante salientar que as propriedades do gesso crê apresentam alguma diferença, de marca para marca. Alguns absorvem mais óleo do que outros, portanto é possível que em alguns casos seja necessário um ajuste na quantidade de óleo. O artista deve ficar atento a viscosidade e a oleosidade da mistura e entender se a receita necessita mais óleo, menos óleo ou até mais gesso. Recomendamos que se faça um pequeno teste, antes de se fazer a receita para aplicar em telas ou painéis e observar os resultados da base no teste. Infelizmente, não é muito prático, mas é a maneira mais segura de se usar esse material.

A base tradicional com óleo de linhaça é a que mais demorará a secar, algo em torno de 12 horas para secagem superficial (ao toque) e pelo menos sete dias para uma secagem mais profunda. A adição do óleo torna a ação mecânica de misturar os ingredientes consideravelmente mais demorada e cansativa. Tornando o tempo total de fatura bem demorado. As marcas das cerdas do pincel (quando se passa a base) são completamente niveladas, resultando no melhor resultado em termos de regularidade na superfície pré-lixamento. 

Lixar é mais fácil do que o gesso acrílico, mas oferece mais resistência do que a outra base tradicional. A superfície final, quando seca, é de um amarelo levemente mais escuro do que a primeira base. A película resultante de uma demão parece ser menos elástica e levemente mais porosa do que o gesso acrílico. A pintura resultante desse tipo de base retém consideravelmente o seu brilho e viscosidade, conferindo a esse suporte a condição de “semi-absorvente”. É possível fazer uso de uma maior quantidade de óleo, para que essa base torne-se ainda menos absorvente.

6. Considerações Finais

 

Não seria correto classificar os diferentes atributos absorvente ou não-absorventes como desejável ou não desejável. Essa é uma questão de preferência de cada artista, e para certos efeitos finais numa pintura, cada um possui sua função. A grande vantagem da base de gesso acrílico é sua praticidade. A desvantagem das bases tradicionais é ter de acertar a felxibilidade da mistura para que não haja nenhum problema, especialmente se essa base for a segunda versão, mais oleosa, para ser usada em telas. No entanto, a sensação de se pintar na base tradicional é, em nossa opinião pessoal, consideravelmente melhor. Recomendamos de forma geral que a base moderna seja usada em telas e as bases tradicionais em paineis de madeira, embora a base tradicional oleoso seja mais segura para uso em telas, faça alguns testes antes de usar em seus trabalhos: a elasticidade da base deve estar adequada. 

 

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BIBLIOGRAFIA RESUMIDA
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2013.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.

62 Comments

  1. Leo, sim é perfeitamente possível, sendo que a maior parte das colas que se dizem feitas com coelho são na verdade colas feitas com proteína animal da industria de gelatina, portanto, é na verdade tutano e cartilagem bovina e suína. A cola coqueiro pode não ser tão elástica quanto a cola de coelho mas é tão forte quanto e extremamente resistente, consistindo num produto realmente muito parecido. Usei a cola de coelho somente uma vez e todas as outras centenas de vezes que preparei cola de proteína foi com a cola coqueiro, sinceramente, não vi muita diferença entre os produtos.

  2. Caro Leo, não é substituto nesse caso. Meus testes com CMC e com colas de polímero aniômico revelam um produto menos viscoso e bem diferente da cola de proteína. Nesse caso, a similaridade está mais para a cola PVC (polivinílica) do que para a cola de proteína. Produto menos durável e elástico do que a cola de proteína e também acredito que menos permanente do que a cola PVA. Não recomendo.

  3. Olá Márcio, tudo bem?Recentemente fiz um experimento onde misturei uma porção de gesso cré ao gesso acrílico (30-70). O resultando me pareceu bem agradável para a pintura, deixando a base mais aveludada. Teria algum risco nessa mistura?Outra dúvida é sobre a base que usávamos antes de o gesso acrílico se tornar popular, que era feita com Tinta PVA + Cola PVA (ou Cola CMC). Essa base sempre me pareceu frágil, pois no meu entendimento não há um carbonato ou gesso que dê estrutura para a base, mesmo a tinta tendo alguma carga. Há algum sentido ainda em usar esta mistura já que temos o gesso acrílico que é produzido especificamente para servir de base?Muito obrigado pela atenção e Saúde para todos nós!AbraçosMichel

  4. Olá Michel! Eu não acredito que sua base com 30% de gesso crê e 70% de gesso acrílico possa dar algum problema, sendo que a quantidade de veículo elástico é superior a quantidade de inerte. Mas, é sempre bom examinar a tela de tempos em tempos, observe.O gesso acrílico é uma excelente base elástica e no meu entendimento, superior a elasticidade e plasticidade da cola polivinilica, portanto, acho desnecessário fazer uso do PVA quando se tem o gesso crê. A não ser pelo único e exclusivo motivo do artista preferir a PVA por algum motivo processual, como preço.Um grande abraço!

  5. Certo! Fiz este experimento pois gosto mais da textura do gesso cré que a do gesso acrílico e desta forma não necessitaria de trabalhar com a cola orgânica.Infelizmente, os materiais para arte de um modo geral são caros na mesma proporção que os artistas são pobres rsrsrsr então acho que o pessoal tende a achar soluções mais baratas (e estranhas) para conseguir produzir, aí a qualidade sempre é deixada de lado. Principalmente que hoje temos materiais da construção civil com ótima qualidade que prometem milagres até para os artistas.Desta maneira a resina acrílica, seria então um material melhor também para a encolagem que a PVA? Pois há uma receita que aprendi que sugere duas demãos de Cola PVA diluída e duas demãos de gesso acrílico puro (como na embalagem). Outra sugere apenas o gesso acrílico, duas demãos diluídas e duas puro. Apenas o gesso acrílico é suficiente (e eficiente) como base de preparação, inclusive para o óleo?Abraços e obrigado pela atenção!

  6. A encolagem feita com PVA funciona melhor pois forma uma película lisa e pouco absorvente, diferente do gesso acrílico que é mais absorvente. Por isso o gesso vem depois, por ser um material com inertes ele cobre os poros do tecido, complementando o processo. Há um artigo inteiro aqui sobre como fazer bases, versão tradicional com cola de proteína e versão moderna com PVA e gesso acrílico. Abraço!

  7. Olá Márcio, acompanho o blog a alguns anos, me chamo Filipe Calheira.Venho lidando com problemas ligados a mudança de valores escuros após a secagem na tinta óleo (sinking-in). Testei a base semi-absrovente porêm sem grandes resultados.O que acho estranho (para não dizer bizarro) é que a perda de valor e brilho (sinking-in) ocorre meio que aleatóriamente, algumas zonas sofrem sinkin-in enquanto outras mantem o brilho e o valor originalEntretanto consigo observar algum padrão, me parece que a primeira camada de tinta (logo após a imprimatura ou ground) sofre pouco ou nenhum sink, e ao aplicar uma segumda camada o sink acontece, Estou pensando em finalizar toda a zona escura na primeira etapa ou utiliza-lá como trasparencia sobre a imprimatura (o que é muito comum). Ressaltando que esse efeito indesejado só ocorre nos valores escuros. Enfim, essa perda de valor e brilho é muito incômoda, ter que fazer ouling-out em cada nova camada e ficar refêm de vernizes, passar telas para clientes com aquele aspecto opaco e etc… Você tem alguma ideia sobre como lidar com isso?

  8. Olá Filipe. Com certeza o suporte não está absorvendo de maneira uniforme, em certas partes absorve mais e em outras menos. É preciso descobrir o que no seu processo de fatura de base precisa ser melhorado. Você tem feito uma encolagem antes de aplicar o gesso? Geralmente a encolagem ajuda muito nesse sentido, pois o gesso é muito absorvente. Tente usar uma encolagem DUPLA. Dê uma boa demão de cola, espere secar totalmente e depois de mais uma demão. Aplique o gesso depois. Faça a base assim e teste essa tela. Espero que dê certo! Grande abraço!

  9. Conhecimentos raros e ultra necessários!

    Seria uma boa opção após a base absorvente secar, eu aplicar uma camada de cola de pele para torná-la não-absorvente?

    A tela não-absorvente é muito melhor para a pintura de dead-layer (pois é a única parte do processo que está diretamente em contato com a base), o que facilita o controle com a tinta.

    Muito obrigado.

    1. Não é comum na pintura tradicional o arremate com a cola de coleho por cima da base, o comum é o uso de uma camada de tinta óleo para “selar” a base, esperando que essa camada seque. Abraço!

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