Painéis para Pintura

Apesar do tecido esticado sobre chassi ser o suporte mais popular na pintura contemporânea, os painéis são uma opção mais segura para a conservação de trabalhos artísticos, a longo prazo. Com sua superfície rija, é menos frágil e se movimenta menos do que o tecido esticado sobre chassi (tela), tornando a superfície da pintura menos suscetível a rachaduras e craqueluras. Os mestres flamengos e italianos costumeiramente usavam desses painéis como forma de garantir que a pintura permanecesse intacta por séculos. Para pinturas grossas que usam de uma técnica de impasto, como a pintura a óleo e a encáustica, assim como para todas as tintas que secam formando uma película pouco elástica como a têmpera, é sempre arriscado apostar nas telas, sendo o painel o suporte ideal. 

Em primeiro lugar, é preciso que o artista entenda que não é adequado pintar sobre qualquer madeira crua, sem uma preparação prévia. Existem uma série de cuidados necessários, como por exemplo, os diferentes ingredientes para a base que cobrirá o suporte, portanto, é importante que o artista saiba como construí-los corretamente.

Construir painéis duradouros não é exatamente fácil, portanto, é necessário paciência. Além disso, é dispendioso. É certamente mais caro e demorado do que simplemente esticar uma tela em chassis, ou do que comprar uma tela já pronta, portanto, não é a toa que a maioria dos artistas optam por essa última opção. O pintor deve avaliar suas prioridades: para estudos rápidos e exercícios, a tela pronta é uma escolha lógica e prática, mas para trabalhos e encomendas importantes, é interessante que se considere o uso de materiais mais permanentes e robustos, como os painéis. Não é somente uma forma correta e muito ética de comercializar um produto artístico, mas é também uma forma de conservar o legado do artista. As obras que mais perduraram ao tempo foram feitas em painéis, e não em telas. 

Trataremos a seguir de algumas formas de preparar painéis rígidos tradicionais para pintura. O procedimento que usaremos é voltado para a construção de painéis de com no máximo 90 cm x 90 cm. Quando as dimensões começam a ficar maiores do que isso, outros fatores entram em jogo, é então necessário um procedimento diferente, que veremos num futuro post.

Madeira
As madeiras nobres seriam as ideais para preparar o suporte, no entanto, hoje elas são raras, opções pouco ecológicas e incrivelmente caras. Sendo realista, a maioria dos artistas hoje trabalham não com madeira real, mas com chapas de compensado. Escolha um compensado com espessuras entre 3 ou 5 mm. Quanto mais grossa é a placa, mais confiável é a permanência do suporte pois envergam com maior dificuldade, por outro lado, placas muito grossas deixam o suporte muito mais pesado, sobretudo quando a pintura é maior do que 50 cm, sendo um problema para pendurar em qualquer lugar, precisando grandes parafusos com buchas além de dificultar o transporte. No caso de um painel grande, opte por um compensado não muito grosso mas é necessário adicionar ripas de apoio no verso do compensado, como se fosse um chassis, para garantir que não envergue.

Compensado


Tenha certeza de que a placa de compensado não foi cortada torta e que não possua ondulações, caso note esses defeitos, descarte a placa e corte uma nova. Compre um chassi comum, o mesmo usado em telas artesanais, do mesmo tamanho da placa de compensado para que o mesmo sirva de reforço no verso da placa. Um dos tipos de madeira mais usados para a fatura de chassi, superior ao famoso “cedrinho”, é a “caixeta”. 

Cola Animal
Isso é um assunto tão complexo que farei um post exclusivo muito em breve. Há disponível uma série de colas que podem ser usadas para fixar o chassi a placa. A cola de pele de coelho, feita de colágeno animal foi exaustivamente usada ao decorrer da história da arte. Apesar da discussão sobre sua comparação com diversas outras colas, continua sendo uma das mais usadas para esse fim, em inúmeros ateliês europeus e americanos. Existem aqueles que tem a opinião de que seu uso é puro saudosismo, sendo que hoje, há a cola PVA, mas um fato é irrefutável: é um material traidicional que possui sua eficácia comprovada pelo tempo, a cola usada em todos os quadros da antiguidade que perduram nos museus europeus.

No Brasil, é difícil encontrar a cola de pele de coelho, e mesmo nos lugares que costumam vendê-la, é comum que suma das prateleiras e demore a aparecer novamente. Como substituto, há a “cola coqueiro”, que leva o nome por causa do primeiro fabricante brasileiro, mas que na verdade também é uma cola com base em colágeno animal, apesar de não ser de coelho, que é a mais elástica. Assim como a cola de pele de coelho, ambas são comercializadas em três formas: trituradas em forma de pó ou pequenos pedaços (a forma mais comum, que se assemelha a ração animal), em finas folhas quase transparentes (formato mais raro) e em grossas placas sólidas (esse era o formato mais comum no começo do século).

Cola de Coelho e Coqueiro

Tradicionalmente, na antiguidade outras colas de proteína eram usadas, como a cola de peixe, mas essas não são mais comercializadas hoje. Há ainda a possibilidade do uso da gelatina que se encontra nos super-mercados, de preferência em folhas, sempre incolor, no entanto, possuem baixa concentração de colágeno, e é necessário muitas folhas para obter uma cola robusta, portanto, é uma opção mais cara e mais trabalhosa. A preparação dessas colas exigem cuidados que serão detalhados num próximo post.

Cola PVA
Uma outra opção menos tradicional, embora mais prática e vegana, além da cola de proteína é a cola branca também chamada de cola PVA, ou cola cascorez, que alguns acreditam ser superior as colas animais por absorver menos humidade, mas nenhum estudo expressivo foi publicado provando essas especulações. Prefira aquelas que possuem PH neutro. Quaisquer uma dessas opções (animal ou sintética) mencionadas acima são válidas para construir painéis.

Fixação por colagem
Um dos versos da placa de compensado, assim como do chassi (o lado reto), recebe uma mão de cola, e os dois devem permanecer em contato durante pelo menos 24 horas, através de pesos ou do uso de uma ferramenta chamada sargento, facilmente encontrado em casas de materiais de construção. Seria necessário um sargento para cada quina e mais quatro para cada lado da placa, totalizando 8 ferramentas de fixação.

Sargento

Fixação com pregos
Após pelo menos 24 horas, tendo certeza de que a placa aderiu totalmente ao chassi, pregue o chassi com pregos pequenos e finos, tomando cuidado para não criar muito impacto diretamente na madeira. Os pregos ideais para esse procedimento são banhados em cobre, pois não enferrujam, e podem ser encontrados em três casas especializadas em São Paulo. Pregue nas quatro quinas do suporte e ao centro de cada um dos quatro lados. Use uma toalha ou tecido em cima dos pregos para não martelar a superfície da placa e danificá-la e amortecer o impacto direto do martelo. O painel deve receber algumas mãos de cola para isolá-lo.

Tecido (Opcional)
A aplicação de um tecido ao suporte é opcional. É uma aplicação delicada e exige extremo cuidado, tradicionalmente usado no período do renascimento e flamengo, a preparação com tecido é complicada. A cola deve ser preparada de modo que não seja muito forte nem muito fraca, caso contrário, a colagem do tecido pode rachar a base. Se voce não tem experiência com a fatura de painéis ou com materiais de pintura em geral, recomendamos que não tente a encolagem do tecido, pois ele costuma apresentar deficiências quando aplicado de modo inadequado. De qualquer forma, é um item opcional. Os painéis feitos sem tecido funcionam perfeitamente.

O tecido garante que a longo prazo, se a madeira expandir ou contrair, a película formada pela pintura permaneça intacta pela mobilidade das cerdas do tecido, por isso é desejável que o tecido seja parte do painel. Corte um pedaço de tecido com alguns centímetros (2 ou 3 cm) a mais do que o tamanho de seu suporte. Use linho crú, lonita, hemp ou algodão. Aplique uma mão de cola animal ou PVA no suporte e coloque o tecido em cima, apertando com a ponta dos dedos em movimentos que vão do centro para fora do suporte, até que ele fique bem grudado. A quantidade de cola deve ser generosa o suficiente para garantir uma perfeita adesão e sem nenhuma bolha.

Linho colado

O uso de calor
Deixe que o tecido seque ao natural, e nunca use secadores ou qualquer outro tipo de procedimento a calor para acelerar a secagem. Nunca use calor para acelerar a secagem. No caso da base em gesso (que veremos a frente), o calor pode provocar rachaduras e arruinar o suporte. Aguarde pelo menos 24 horas para continuar o procedimento.

Rachaduras (calor)

Encolagem: demão isolante
Após a secagem completa, é necessário aplicar uma demão uniforme de cola animal (ou PVA) em toda a face do painel que receberá a posteriormente a base de pintura com gesso. Essa demão de cola é chamada encolagem e garante que a tinta não passe do gesso para o tecido, com o risco de apodrecê-lo. Após a última demão de cola, está na hora de cortar o tecido excedente, bem próximo a placa. Use uma régua confiável e um estilete robusto com uma lâmina nova. Procure cortar o pano excedente da forma mais reta possível.

Base final ou cobertura
Existem dois tipos de “bases” que servem para “preencher” os sulcos e buracos da malha do tecido, deixando o painel perfeitamente liso. Uma observação importante é que ambas as “bases” possuem comportamentos muito diferentes. Discutiremos suas diferenças e utilidades em outro post.

Uma dessas bases, usada desde antes da idade média, é uma mistura de 1 parte de cola animal, 1 parte alvaiade, carbonato de cálcio ou de gesso crê. É muito importante que o artista consiga medir a quantidade de forma exata, ou pelo menos muito aproximada, por isso, use um copo com medidas. Com uma parte de cola reservada, misture lentamente o alvaiade (ou uma das outras opções), sempre movimentando com uma colher para que fique bem homogêneo e nenhum “nódulo” seco fique encapsulado. É necessário filtrar a mistura e reservá-la numa garrafa limpa, usando um coador que não seja muito fino, pois a mistura é consideravelmente grossa. Essa mistura permanece usável por cerca de 10 ou 15 horas, dependendo da temperatura ambiente, após isso, começa a secar e se torna difícil de aplicar. Dependendo da quantidade de base aplicada, teremos um tempo de secagem entre 5 e 24 horas para que fique completamente seca.

Uma segunda base, mais moderna, é de fatura muito mais simples: aplique o material chamado de gesso acrílico ou “base acrílica”, facilmente encontrado em lojas de materiais artísticos. Nesse caso, a secagem pode levar dentre 30 minutos a três ou quatro horas dependendo da quantidade de gesso usado e da temperatura ambiente. Em dias de frio a secagem é afetada grandemente.

Finalizando o painel
Após a primeira demão da base, feita com cola animal, é necessário lixar atentamente a superfície. Use lixa para parede número 220, pois a mesma tem a função de desbaste. Em alguns pontos é possível que a lixa “coma” através da base e alguns pontos das fibras do tecido venham a tona, é necessário cuidado para não desbastar o tecido. Examine a tela de lado, com suficiente luz em sua superfície para entender em quais pontos é necessário maior desbaste. Repita a aplicação de base, espere secar e lixe novamente com a lixa 220. Repita a aplicação de base, espere novamente secar e lixe a terceira e última camada com lixa d´água 360, com função de acabamento. A superfície do suporte deve ficar semelhante a da superfície de um ovo, levemente porosa, mas perfeitamente lisa.

Os painéis feitos com gesso acrílico não precisam ser lixados, pois ele dificilmente deixa marcas, sobretudo quando se adiciona um pouco de água. Se for necessário lixar alguma imperfeição depois de seco, note que o gesso acrílico é de difícil lixamente devido a sua natureza “emborrachada”. Um truque para contornar o problema é borrifar agua na superfície e lixar ainda molhado.

Essa é uma forma de se construir painéis tradicionais para pintura. Se voce deseja construir um painel mais simples que não seja necessariamente baseado em alguns passos fundamentalmente tradicionais, num artigo futuro, mostraremos como preparar um suporte mais simples, através de aplicações de materiais comuns que melhoram a qualidade das telas comuns compradas em lojas.

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BIBLIOGRAFIA RESUMIDA
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
AMIEN; Art Materials Information and Education Center; 2013.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.

61 Comments

  1. Olá Averaldo! Você tem toda razão. Escrevi esse artigo em 2010 e na época, sem muita experiência com chapas de madeira, me disseram que o compensado era um MDF em placas. Alguns anos depois percebi que realmente o nome do material era na verdade compensado, mas nunca arrumei o artigo por que nem me lembrava mais disso. Ainda bem que nos avisou, dessa forma, alterei o texto para a forma correta, obrigado! Agradeço sua colaboração e explicação sobre as diferentes madeiras usadas no compensado, muito bom! Grande abraço!

  2. Olá, achei este post excelente, me esclareceu muito, obrigada. Quanto ao MDF, é possível tornar este tipo de suporte duradouro com algum tipo de tratamento? Eu fiz o seguinte: em placas de MDF de 4mm apliquei no verso um verniz para madeiras, a fim de impermeabilizar e evitar que puxe umidade com o tempo. E na face que irá receber a pintura apliquei verniz acrílico para artesanato, em seguida uma camada de base acrílica e depois duas camadas de gesso acrílico. Você acha que dessa forma meu suporte pode chegar a ter uma vida longa?

  3. Ainda sobre o gesso… notei que algumas de minhas pinturas ficam muito opacas, especialmente aquelas onde uso cores escuras. Nos suportes onde utilizei gesso as pinturas ficam muito mais opacas do que aquelas feitas em suportes tratados apenas com base acrílica. Isso acontece tanto em suportes feitos em MDF quanto em telas compradas prontas. Você acha que o gesso \”chupa\” o óleo da tinta, deixando a pintura opaca?

  4. Impermeabilizar é uma proteção, mas não é garantia de tornar o MDF mais duradouro. Se voce quer realmente apostar num suporte mais duradouro, trabalhe com os compensados navais, bem melhores que o MDF.

  5. Oi Glauber, eu acho um caminho promissor. Com absoluta certeza, os plásticos são super flexíveis o que é uma super vantagem. A grande questão é: durante quanto tempo certos plásticos permanecem assim? Quantos anos certos plasticos levam para envergar, rachar ou endurecer? Esse tempo é maior ou menor do que o de certas madeiras? Sabemos que as madeiras nobres duram 600, 700 anos se forem bem preparadas e conservadas. Mas os plasticos são materiais relativamente novos. Enfim, tudo depende do tipo de plastico e se há uma maneira de obter essas repostas de modo científico o bastante para nos oferecer alguma garantia. A problemática nunca é no curto ou médio prazo, mas no longo. Grande abraço!

  6. Olá, tenho uma dúvida.
    Se eu fizer minha placa de compensado impermeabilizando com cola PVA cascorez e depois camadas de gesso acrílico, minha pintura a óleo ou têmpera ovo pode ser comprometida?
    Obrigado!

    1. Olá Rafael.
      Geralmente a base funciona bem no compensado, o problema se dá mais no MDF, que acaba deformado com aplicado a base. Faço bases em compensado a anos com nossos alunos e nunca tivemos problemas. É claro que as obras devem ficar em lugar seco e longe da umidade, caso contrário a obra sofrera de qualquer maneira. Abraço!

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