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Técnica de Velatura

Afinal, o que é a velatura e como essa técnica pode ser usada? Abordaremos uma categorização definitiva e claro sobre essa aplicação, para ajudar o leitor a eliminar todas as suas dúvidas!

 

 
1. Velatura (Veladura)
Os principais meios de se obter gradações de valor e chroma com a tinta estão relacionados, na pintura indireta, com a construção de finas camadas transparentes ou semi-transparentes de tinta, que combinadas, apresentam um delicado jogo de valores. Mas como isso acontece em termos práticos? De que forma deve se carregar o pincel e usá-lo numa pintura? É o que discutiremos na segunda parte desse artigo.

 

Veremos a seguir duas maneiras de se trabalhar a tinta na abordagem indireta de pintura. Ambas podem ser usadas como procedimento exclusivo, ou até mesmo intercaladas em inúmeras camadas. Os efeitos obtidos com ambas as técnicas são razoavelmente diferentes. Gostaria de lembrar que a pintura indireta costuma obter um resultado mais “limpo” e elegante quando o suporte não apresenta os poros dos tecidos, compreendendo um painel liso. Para saber mais sobre a fatura de painéis, leia artigo anterior.

2. Glazing
Também denominado de glazing nos EUA, a velatura (ou veladura) é um procedimento que pode ser traçado desde a idade média, aparecendo primeiro nas técnicas de têmpera usadas em afrescos, ícones e iluminuras, mais tarde, amplamente usada na pintura a óleo, sobretudo no período góitco e no renascimento. Presta particular utilidade na pintura a óleo pois a própria natureza oleosa do meio permite que a tinta seja espalhada vagarosamente, de maneira a deslizar com facilidade no suporte, criando uma finissima camada de tinta que age como uma camada transparente levemente colorida. Em mais de uma fonte a palavra “véu” é utilizada para explicar a velatura.

A analogia com um tecido fino e transparente é perfeita, pois funciona de forma similar. Se temos um tecido qualquer, na cor azul, e cobrimos o mesmo com um véu amarelo, devido a característica física do véu podemos ver através dele o tecido azul que se encontra embaixo. Como o véu é transparente, mas também possui cor, ambas as cores se mesclam num efeito óptico, resultando na cor verde (azul + amarelo). Portanto, a veladura é muito útil para construir efeitos cumulativos de camadas.

Pode ser empregada dessa maneira para duas situações distintas. A primeira, seria para “tingir” uma camada de pintura, sobrepondo uma nova cor. Imagine que temos finalizada e seca, uma pintura monocromática de um rosto, todo completo com sombra, meio tom e luzes. Com um pigmento transparente ou semi-transparente, a veladura se acomoda numa nova camada em cima da pintura de modo que depois de seca, é possível ver o rosto “tingido” pela nova cor com a qual fizemos a veladura. Através de um fenômeno óptico, a camada de veladura “empresta” sua cor a pintura monocromática. Isso possibilita, através de um detalhado planejamento, adicionar cor a um underpainting monocromático.

 

Ingres, “Princesa Albert de Broglie”, 1845.
Retrato feito com veladuras


Especialmente útil para que o pintor consiga “separar” dois pensamentos formais da pintura. Primeiro pensa e aplica somente valor. Em seguida, pensa e aplica somente cor. Dessa maneira, não é necessário julgar de antemão o valor e cor numa mesma etapa. A grosso modo, é um processo similar ao das fotos preto e brancas que são coloridas com aerógrafo. Artistas fizeram trabalhos espetaculares empregando ostensivamente a veladura, como o caso de Raffaello, Tiziano, Veronese, Michelangelo, Ingres, Bouguereau entre outros. É possivel então, criar uma obra usando somente veladuras, de seu início ao fim. Mas também é possível empregar a técnica apenas para “corrigir”, “acentuar” ou “neutralizar” as temperaturas de cores, mesmo numa pintura
alla prima.

É importante lembrar que a “claridade” da obra feita com esta abordagem está relacionada com a quantidade de veladuras empregada. O uso excessivo de veladuras resulta numa pintura cada vez mais escura, de forma que, as melhores pinturas feitas com veladuras são aquelas que usam poucas camadas. Para que o pintor consiga chegar ao resultado final de uma obra pintada com veladuras sem que ela fique “pesada”, é necessário que o mesmo tenha calculado e avaliado corretamente todas as cores necessárias para cada camada, assim como o resultado a ser obtido pela soma “optica” das mesmas. Ou seja, é necessário planejar e prever de antemão qual será o resultado como um todo.

Veladura de Azul Ultramar 


Mas como aplicamos uma veladura? Em primeiro lugar, os pigmentos mais indicados sempre serão transparentes ou semi-transparentes. As cores opacas tendem a cobrir demais a camada inferior e a “apagar” o que foi feito previamente, como se o “véu” de cor fosse muito forte ou demasiado opaco para que possamos ver o que está embaixo. Se adicionarmos muito medium a tinta, estamos retirando poder de cobertura, portanto, uma regra a ser sempre seguida é lembrar que uma veladura deve ser rica em tinta, e não em medium.

Portanto, é sempre interessante adicionar um pouco de medium, mas não em excesso. Certamente o medium pode ajudar no ato de se espalhar a tinta, e mudar suas caraceterísticas reológicas, mas somente em pouca quantidade isso se torna útil na veladura, pois a idéia é mudar a cor, e com pouca tinta, o efeito é muito sutíl. Também devemos lembrar da regra dos 20%, comentado em artigo anterior.

Tiziano, “Man with Quilted Sleeve”, 1510.
Veladuras e Sfregazzos.


Muitos artistas sentem dificuldade em fazer com que a tinta se espalhe de maneira agradável sobre uma área grande de pintura quando necessitam criar uma área de veladura que não é muito pequena. Em primeiro lugar, sugiro que escolha a cor a ser usada numa versão totalmente transparente e não semi-transparente ou opaca.

Em segundo lugar, existe uma técnica muito antiga, que aparece pouco nos tratados e manuais de pintura, que pode ajudar o pintor nessa tarefa. Certa vez, conversando com outro amigo pintor, comentei que não acreditava na existência de verdadeiros “segredos perdido\” dos velhos mestres, mas que certamente alguns procedimentos são menos familiares do que outros por omissão de certas fontes. É o caso dessa técnica de veladura que comento a seguir.

3. Couch
Os norte-americanos chamam esse procedimento de “couch“, embora o termo provavelmente seja uma corruptela do francês “couche“, que pode ser compreendido, nesse contexto, como “camada”. Os italianos possuem alguns nomes para o procedimento, embora prefira o termo “letto d´Olio” (cama de óleo). A técnica tem suas origens desconhecidas, mas foi amplamente usada em toda a europa pelo menos desde o período do romantismo e possui diferente denominações em outras linguas. Nos EUA, também é chamada de “oil out“.

É interessante notar a engenhosidade da tecnica como uma resolução ao problema anteriormente citado. Se a tinta não se espalha de maneira a cobrir de forma lisa e adequada o suporte e a adição de medium a tinta além de tirar o poder de cobertura pode quebrar a proporção óleo pigmento, a resposta só pode estar no suporte. Para que a veladura escorra solta, livre e adequada, sem a adição de resina na tinta, aplica-se o medium, que nesse caso pode ser apenas óleo vegetal (linhaça, nozes, papoula, etc), diretamente no suporte, ou, na pintura seca que receberá a veladura. Alguns artistas o fazem molhando levemente a ponta do pincel no medium e passando na área da pintura onde se quer fazer a veladura.

Começo da aplicação do Couch
em pintura previamente seca.


No entanto, o procedimento com o pincel pode ser ineficaz, pois ele espalha medium em demasia, e forma uma área onde podemos encontrar diferentes quantidades de medium na superfície. A melhor forma de se aplicar o
couch é molhar a ponta do dedo indicador em um pouco de óleo ou medium e esfregá-lo gentilmente, acariciando suavemente a superfície da pintura, espalhando cuidadosamente o óleo na superfície até que a mesma esteja “hidratada” igualmente por toda a área a ser pintada. A idéia é que a superfície fique lubrificada, para que a tinta deslize facilmente com uma quantidade ínfima de medium.

Nas primeiras vezes que se usa o couch, é comum que o artista adicione medium demais a superfície. Nesse caso, também é possível usar um pano de tecido absorvente que não solte os pelos para remover o excesso, massageando a superfície com o pano. Há uma “anedota da pintura” que conta sobre o uso de uma luva de seda por Raffaello, para retirar o excesso do couch. Mas o procedimento de remoção de excesso com um pano costuma desperdiçar muito medium. Com experiência, é possível começar a discernir melhor a quantidade suficiente de óleo ou medium que se deve usar na ponta do dedo para cobrir uma área e promover uma lubrificação ideal para a veladura. O couch é um método particularmente útil para pinturas em camadas, que resultam numa superfície sem empasto e marcas, totalmente lisas.

Uma última dica, é que o artista faça uso somente de pincéis de pêlos extremamente macios, como os de Mongoose, Badger ou preferencialmente os de Marta: mais indicados para se trabalhar com velaturas e camadas extremamente finas, sem deixar marcas. Os pincéis de pelo duro são os menos indicados para essa tarefa.

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BIBLIOGRAFIA
THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York.
VELÁSQUEZ, Louis; Oil Painting with Calcite Sun Oil, Velapress, 2007.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847

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