1. O Sfumato
Uma das criações mais importantes para a pintura, se não a mais importante em termos históricos, é constantemente apontada como uma criação da escola italiana, por Leonardo Da Vinci. O Sfumato, termo cunhado a partir do verbo “esfumar”, ou “tonalizar”, é uma técnica que provavelmente veio dos desenhos a carvão e da sanguínea, e mais tarde, empregou-se o mesmo princípio na pintura a óleo. Muito se fala sobre o sfumato, mas quase sempre não se explica de modo claro sua importância dentro da arte, o sfumato mudou a história da arte, em dois aspectos que veremos a seguir.
Sua idéia básica é a de “esfumaçar” o papel com o resíduo deixado pela ferramenta (carvão, sanguínea), através de um trapo velho, um pincel, uma “boneca” de pano ou até mesmo a ponta do dedo. Essa “sujeira” pode ser guiada ou espalhada por esses instrumentos, produzindo uma área “esfumada”. O sfumato produz sombreados e gradações de valores difusos e suaves sem linhas ou demarcações duras, geralmente partindo do claro para o escuro. As áreas claras constituem-se pelas áreas do papel ou do suporte que não foram “borrados” pelo sfumato, e as áreas escuras são feitas através da ação de friccionar o carvão ou a sanguínea no suporte.
A técnica propulsionou a criação de obras profundamente realísticas. Antes, as marcas de linhas deixadas pelos materiais eram usadas para criar hachuras e assim criar uma ilusão de volume. No entanto, a técnica de linhas ou hachuras apresenta claramente a intenção da técnica em construir uma ilusão através da soma de várias “marcas” deixadas pelas mãos do artista. Pode-se dizer então, que o sfumato é a criação técnica que proliferou e tornou possível o alcançe de uma nova “modalidade” de pintura mimética, com um realismo até então inédito. É possível que a impressão causada pelo sfumato fosse algo parecido com o impacto causado pela fotografia quando foi inventada.
| Leonardo: Hachuras, Sfumato e Sfregazzo com Branco |
Com o sfumato, as hachuras e linhas desapareciam, e a luz e sombra podia ser pintada de modo a criar ilusões de profundidade muito convincentes, assim como efeitos atmosféricos de distância entre objetos. Sem o sfumato, a história da arte teria tomado um rumo diferente. Com essa técnica, a pintura a óleo tornou-se o “carro chefe” das artes, pois a facilidade de se obter degradês com o óleo, aliado a técnica do sfumato resultaram numa abordagem perfeita para obter pinturas extremamente realistas. Com a possibilidade de se conseguir transações suaves e naturais, assim como vemos na natureza, a marca do pincel ou do lápis deixam de aparer como principais figurantes dos desenhos e pinturas.
É notável aqui, que o desaparecimento da mão humana, assim como da intenção do artista ou sua presença, é pauta como um dos adventos mais importantes da história da arte. As marcas de pincéis e os “acidentes” espontâneos das ferramentas são maquiados através dessa técnica, surtindo um efeito de completa assepsia.
Conceitualmente, o sfumato tornou possível que o artista pintasse uma cena verossímel, crível, onde não se vê traços da fatura humana, causando um paralelo com a criação divina, como se a obra fosse entregue pelas mãos do próprio Senhor. Perfeito para decorar o interior das igrejas e catequizar os fiéis. Em termos conceituais, o artista esconde a marca do gesto e apresenta obras isentas de “distrações” e imperfeições, peças que parecem entregues por mãos que não humanas. Em termos técnicos, um passo gigante em direção ao realismo e a mímese.
Portanto, o sfumato serve-nos como uma boa explicação de como uma técnica de desenho pode ser empregada na pintura de modo a surtir efeitos miméticos, totalmente compatíveis com aqueles usados pelos pintores da atiguidade. O sfregazzo, técnica de pintura indireta, é uma “extensão” do sfumato na pintura.
2. Sfregazzo
Partindo do mesmo princípio físico que o sfumato, o sfregazzo funciona a partir da fricção ou ato de “esfumaçar” com a tinta. Também chamado de “scumbling” nos EUA, é uma técnica que necessita alguns esclarecimentos para que seja empregada de forma adequada. Em primeiro lugar, aqueles que desejam pintar com o sfregazzo devem lembrar que é possível atingir resultados similares (em termos formais) com a técnica de veladuras. No entanto, a pintura final, feita inteiramente com sfregazzo, tem características diferentes do que aquela feita somente com veladuras.
| Underpainting inacabado feito inteiramente com Sfregazzo. |
O sfregazzo tende a apresentar uma superfície pictórica mais opaca e rudimentar, enquanto a veladura tende a apresentar uma superfície mais lustrosa e lisa. De modo que quando usamos numa mesma pintura ambas as técnicas, vemos claramente pontos com brilhos em diferentes intensidades. As áreas de sfregazzo são claramente mais opacas. Isso se deve a própria natureza da abordagem.
Para tirar proveito máximo do sfregazzo, é necessário usar pouca tinta no pincel. Quando carregamos demais o pincel, a tinta se espalha de maneira a criar manchas fortes sobre a pintura. Para que se alcançe um efeito esfumaçado, é necessário carregar de tinta somente as pontas do pincel, e ainda assim, retirar o excesso de tinta limpando o mesmo num pano limpo que não solte pelos. É assim que o sfregazzo deve ser aplicado, com o pincel praticamente seco.
| Detalhe de Underpainting feito com Sfregazzo. |
Com movimentos circulares, ou com movimentos de “espanar” a superfície, a pouca quantidade de tinta começa a se agarrar na pintura, formando o sfumato. É importante lembrar que a técnica gera camadas de pintura com pouco veículo, e essa prática não é totalmente segura quanto a longevidade das obras. As chances do pigmento se desprender existem, devida a baixa quantidade de óleo envolvendo as partículas de pigmento. Esse é um dos motivos pelos quais a pintura em camadas é as vezes substituida pela pintura alla prima. No entanto, algumas precauções podem ser tomadas para que a película resultante torne-se mais durável.
Alguns pintores preferem usar o sfregazzo somente no underpainting, e terminar a pintura com camadas de veladuras coloridas. Nesse caso, as veladuras funcionarão como um “verniz”, que prenderá as camadas de sfregazzo abaixo delas. Outro modo de promover mais segurança é aplicar uma fina camada de couch (visto no artigo anterior) em cima das áreas feitas com sfregazzo, após a camada de sfregazzo estar completamente seca. Essa camada além de proteger o sfregazzo, dará mais brilho a essa área que provavelmente é mais opaca. Duas vantagens do sfregazzo são a economia de tinta e o rápido tempo de secagem. Tomando esse artigo como um breve guia de procedência, é possível alcançar bons resultados com essa técnica clássica.
A desvantagem da técnica é o fato dos pelos dos pincéis quebrarem ou descolarem do ferrolho do pincel. Com o tempo, se o mesmo pincel só é usado para sfregazzo, nota-se que o mesmo começa a perdar as “pontas”, que são literalmente comidas pela fricção entre os pelos e o suporte. O melhor é usar pincéis que não sejam muito caros, aliados a uma superfície de pintura com uma base de gesso bem lisa, pois quanto mais porosa a superfície, mais dano trará ao pincel.
3. Esbatimento
A técnica de esbatimento é uma aliada do sfregazzo. Para acelerar o processo do sfregazzo em grandes áreas que necessitam maior carga de tinta, o pincel é carregado com um pouco mais de tinta do que o necessário, mas ao invés de se “espanar” o pincel na superfície, ele é literalmente batido, inúmeras vezes, sobre o suporte. A ação de bater, ou esbatimento, descarrega maior concentração de tinta sobre o suporte. No entanto, é aconselhável que se tome muio cuidado, pois o esbatimento pode facilmente arruinar uma área, deixando manchas que parecem inumeros “carimbos”. O sfregazzo pode ser aplicado “em cima” dessas manchas, para espalhar o pigmento e “arrumar” o sfumato de modo a se difundir o degradê no modo que se deseja. É uma técnica simples, praticamente rudimentar, mas que pode ser treinada e praticada para ser grande aliada na pintura em camada.
Com esse breve artigo em três partes, discutimos de grosso modo as principais maneiras de se pintar em camadas. Existem ainda outras abordagens, cada uma com seu mérito. Mas essas discutidas aqui compreendem os procedimentos mais clássicos e amplamente usados na maioria das escolas antigas da pintura. Gostaria de ressaltar, novamente, que embora a pintura em camadas seja um processo válido e adequado para certos efeitos particulares, ele pode ser usado como o princípio, ou como base, para uma pintura alla prima, assim como o inverso também é possível. Muitos artistas pintam de modo “misto”, aliando as vantagens de cada abordagem (direto e indireto) para um máximo aproveitamento.
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BIBLIOGRAFIA
THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847

