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Matiz, Valor e Croma

A Cozinha da Pintura é uma pesquisa inesgotável. Tento entender tantos aspectos dentro desse tema que nem sempre me lembro de explicar conceitos mais básicos. Notei essa semana, graças ao e-mail de um leitor, que alguns fundamentos básicos poderiam ter sido explicados aqui, mas ignorei-os completamente. Imerso numa pesquisa que já se aprofundou consideravelmente, nem sempre lembro que grande parte dos leitores ainda estão nos primeiros passos. Minhas sinceras desculpas. Pretendo na medida do possível, escrever com mais frequência artigos para esses leitores. Sei que os mais experientes ficarão desapontados em ver temas tão básicos, mas todos passamos por um início, não?

 

Então, para começar, nesse post tentarei descomplicar um assunto que geralmente é apresentado de forma muito complicada, sugerindo um exercício prático muito simples e bem divertido. Serão suficientes algumas cores de tinta (branco, amarelo, vermelho, sombra queimada e talvez preto), um pincel e uma paleta ou cartolina. Trata-se de um exercício que embora seja praticamente automático ao pintor experiente, pode ser uma prática complicada ao iníciante.

Dentro da pintura, seja ela óleo, têmpera, acrílica, alquídica, encáustica, gouache, aquarela ou qualquer outra, a experiência de mistura de cores pode se tornar um fardo sem o conhecimento da teoria de cor. Quando nos deparamos com uma cor qualquer, esteja ela nas nuvens do céu, num rosto, objeto ou num tubo de tinta, o pintor deve observar três características fundamentais para julgar como fará sua mistura de tinta: O matiz, o valor e o croma.

1. Matiz:
A qual “família” de cores pertence as cores do exemplo abaixo? A cor da esquerda é obviamente da Matiz do Vermelho. Mas e a cor da direita?

 

Exemplo 1: Matiz

 

É aqui que o pintor deve acessar seus conhecimentos do círculo cromático e lembrar-se das cores primárias, secundárias e terciárias. Esse é provavelmente o único conhecimento que julgo indispensável para quem está começando a pintar. Munido de um círculo cromático, estude e decore quais são as primárias, secundárias e terciarias e como funcionam suas misturas.

Voltemos a nossa amostra de cor do lado direito do “exemplo 1”. Existem inúmeras maneiras de chegar a essa cor usando seus tubos de tinta. É importante lembrar que não há certo e errado, mas caminhos diferentes. Alguns mais práticos e outros mais tortuosos, mas todos eles levam a essa cor, de um modo ou de outro.

Por hora, esqueça seus tubos de tinta e concentre-se somente na cor do exemplo e no círculo cromático. Nosso primeiro passo é identificar a qual família de cores nossa amostra pertence, sua matiz, assim como fizemos com a primeira cor, identificada como vermelho. Aposto como muitos pensaram nos nomes “bege”, “cor de pele” ou “ocre”. Mas esses nomes não se aplicam aqui. Pense em cores mais “puras”, e não em nomes “fantasia”, assim como as cores primárias e secundárias. Consulte o círculo cromático.

Se optar pelo amarelo, fez uma escolha razoável. Há forte tendência para o amarelo, mas note que esse amarelo não é totalmente puro, pois há também um pouco de Vermelho, um amarelo levemente alaranjado. Portanto, escolhi um tubo de tinta amarela, mais um tubo de vermelho, para fazer um amarelo alaranjado, uma mistura que penso ser dessa família de matiz. 

 

Amarelo e Vermelho para a Mistura
 
 
Amarelo Alaranjado


Minha primeira tentativa de mistura surtiu um amarelo por demais alaranjado. Coloquei mais vermelho do que deveria. Se algo similar aconteceu com voce, não há problema. Continue o exercício. Se voce possuir um tubo na cor laranja, pode usá-la, mas provavelmente precisará colocar mais amarelo. Mas a cor do “exemplo 1” não é qualquer amarelo alaranjado. Se voce der uma boa olhada nos tubos de tinta laranja em sua caixa de pintura, ou na mistura Amarelo Alaranjado que fez, notará que nenhuma delas chegará perto da cor de nosso exemplo. Falta mais alguma coisa. Pensaremos então, em outra característica da cor:

2. Valor: 
Trata-se da Luminosidade ou Brilho de uma cor. Valor faz referência ao quão escuro ou claro é a cor. Imagine uma escala de tons de cinza ou uma escala de um mesmo verde com diferentes luminosidades. O cinza mais escuro é um Valor baixo e o cinza mais claro, um valor alto.

Exemplo 2: Valor

Veja novamente nosso exemplo. A cor “ocre” que tentamos fazer, como voce julgaria seu valor? É uma cor escura ou clara? Certamente não é uma cor escura. Portanto, é uma cor de valor alto, uma cor clara. Olhe agora sua mistura de amarelo alaranjado. Ela não somente é mais viva, como de certa forma, mais escura do que a cor de nossa exemplo. Se precisamos clareá-la, é necessário então, misturar branco ao nosso amarelo alaranjado. Depois de colocar um pouco de branco, chegaremos a um valor mais próximo.

Mas isso AINDA não é suficiente. A cor do exemplo é mais “suja”, ou mais “neutra” do que nosso amarelo alaranjado claro. É necessário “retirar” um pouco de cor. Escolha então, alguma cor que deixe sua tinta laranja mais “terrosa”, pois devemos diminuir a intensidade da cor, “tirando” um pouco de sua característica “viva”, a cor em nosso exemplo é muito mais neutra, certo? As tintas de cor marrom são geralmente uma boa opção para “sujar” os matizes puros. Adicione um pouco de sombra queimada ou um tom de cinza. Adicione gradualmente o marrom ou o cinza, neutralizando seu amarelo alaranjado, até que a cor começe a se parecer com a descrição de “bege” ou “cor de pele”. Uma outra maneira de retirar a cor é usar uma cor complementar. No caso do amarelo alarajando, podemos usar um azul violetado ou violeta azulado para neutralizá-lo.

 

Mistura Final: Próximo ao Chroma do Exemplo

Se voce conseguiu diminuir a intensidade, com adição de cinza, marrom ou uma cor complementar (azul ultramar), perfeito. Se a cor ainda está muito diferente, julgue qual é a maior diferença entre elas? É o valor (está mais clara ou escura) ou é a matiz (falta amarelo ou falta vermelho). Se a diferença é o Valor, misture branco para clarear ou cinza para escurecer, se a maior diferença é a matiz, adicione a cor que julga estar faltando (amarelo ou vermelho). Talvez, mesmo depois desses ajustes, seja necessário outros. Não há problema algum, continue ajustando até encontrar a cor do exemplo.

Se voce seguiu os passos atentamente, terá conseguido chegar numa cor muito parecida com o exemplo, tendo se aproximado de seu croma. Isso quer dizer que voce conseguiu chegar próximo a matiz (família da cor) e luminosidade (Valor) de um croma (saturação) específico.

3. Croma:
Saturação ou intensidade da cor. É o croma que nos faz perceber quando o “verde é mais verde”, ou o “vermelho é mais vermelho”. Quando temos uma cor intensa, “pura”, e uma cor apagada e esmaecida, temos um contraste de croma
.

Um ponto importantíssimo para a compreensão do Chroma: Ele é relativo quanto ao valor. Ou seja: para obtermos diferentes cromas de uma mesma cor inicial, é necessário mudar o valor dessa cor, ou acrescentar um pouco de outra matiz, sem alterar a família cromática da cor original. De forma que, a única maneira de mudar o croma, é alterando em qualquer grau seu valor ou modificando levemente sua matiz.

Quando a cor apresenta alto grau cromatico é chamada de cor viva. O croma, é a mistura de um Valor (grau de luminosidade) e uma cor (matiz). O Matiz e o valor, quando juntos, formam um croma específico. Toda Matiz possui um Valor.

Vejamos outros exemplos. Na figura abaixo, temos dois quadrados, ambos com a matiz verde, mas com cromas diferentes, pois possuem valores diferentes. O verde da esquerda possui um valor, ou luminosidade, diferente do segundo. O primeiro (verde mais claro) tem um valor mais alto, e o segundo (verde escuro), um valor mais baixo.

 

 

De modo que, na figura acima, temos uma matiz, com dois valores diferentes, resultando em dois cromas distintos.

 



Na figura acima, temos um verde com maior adição de azul, são dois cromas diferentes, mas temos uma só matiz (pois ambos são verdes), ainda com dois valores diferentes.



Na figura acima, temos duas matizes diferentes (verde e azul), um mesmo valor e dois cromas diferentes.

Com esse simples exercício, entendemos a diferença entre matiz, valor e croma. E conseguimos aplicar esses conceitos no pensamento de mistura de cores da síntese subtrativa.

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BIBLIOGRAFIA
PEDROSA, Israel. O Universo da Cor. 1º. ed. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2004.
ITTEN, Johannes. The Art of Color. New York, EUA: John Wiley & Sons, Inc, 1976.

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