Pincéis

 
Muitos leitores pediram um post sobre pincéis. Devido aos inúmeros pedidos acredito que esse será um post bem popular. Gostaria de lembrar que veremos nesse artigo somente pincéis úteis a pintura a óleo. Não me ative a muitas minúcias e procurei fornecer alguma consideração básica mas fundamental. 

 

1. Tamanhos
É interessante que o artista tenha primeiro em mente o tamanho da obra que pretende pintar para que possa então escolher os tamanhos de seus pincéis. O tamanho dos pincéis sempre dependerá do tamanho da tela ou painel que irá pintar, combinado com o tipo de técnica. Se sua técnica exige pinceladas pequenas para formar pequenos “blocos” de pincelada, pincéis menores devem ser ecolhidos. No entanto, para preencher grandes áreas de cor chapada, trinchas mais largas podem ser muito úteis. Se trabalhamos com uma pintura mais lisa e sem marcas, os pincéis menores serão usados somente para pequenos detalhes, pois nesse caso, um pincel muito pequeno pode marcar as áreas a serem pintadas. Os tamanhos dos pincéis são classificados através de números que vão desde o 001 (em algumas marcas) até geralmente o 20 ou 25, sendo esses últimos praticamente “pequenas” trinchas. Pintores miniaturistas ou que desejam acrescentar detalhes minúsculos certamente precisam de pincéis abaixo do número 0. Pintores muralistas, que criarão afrescos maiores do que 10 metros, certamente precisam de pincéis largos, acima do número 20 ou 30, assim como trinchas.

Um pincel de tamanho mediano, para uma pintura de proporções aproximadamente de 50 x 50 cm seria algo em torno do número 10 ou 12, enquanto os de número 25 ou 30 são pincéis consideravelmente grandes para uma pintura desse tamanho. É interessante lembrar que essa numeração não é exatamente universal.  Algumas empresas relacionam seus números de acordo com polegadas, outras com centímetros e outras usam números sem relação a sistemas métricos. Há marcas que possuem tamanhos e numerações compatíveis, geralmente as produzidas no mesmo país, enquanto existem marcas com boas diferenças de tamanho e numeração. É comum encontrar pincéis com um número particular, feito na alemanha, e outro pincel feito nos EUA com mesma numeração ser três vezes maior do que o primeiro. Portanto, é sempre útil levar seus pincéis velhos quando desejar adquirir novos pincéis e comparar os tamanhos.

2. Dimensão ou Largura do Ferrolho
O ferrolho é a cabeça, feita de metal, onde as cerdas ficam presas de um lado, e onde o cabo se encontra como base. A maioria dos pincéis possui ferrolhos feitos de metais leves e relativamente resistentes. Algumas ligas de metal costumam enferrujar, mas os pincéis profissionais são feitos com ferrolhos com variadas ligas que não enferrujam. A dimensão ou largura do ferrolho é importante, pois ela determina a quantidade de pêlos que o pincel carrega, ou sua grossura. Substantivamente, quanto maior a quantidade de cerdas ou a largura do ferrolho, mais grosso é o pincel e maior sua capacidade de absorção de tinta. Note como alguns pincéis podem ter o mesmo tamanho, mas a dimensão do ferrolho pode ser levemente diferente. O pincel com maior dimensão de ferrolho possívelmente dará pinceladas mais longas pois é capaz de reter maior quantidade de tinta. Por isso é sempre importante considerar, na hora da compra, não somente o tamanho do pincel, mas averiguar se outras marcas possuem pincéis de tamanhos similares com diferentes tamanhos de ferrolho.

Diferentes formas ou formatos

3. Formatos
Encontramos várias formas ou formatos de pincéis. A forma como as cerdas se ajeitam é fundamental para o efeito que se quer atingir, e em alguns casos fundamental para o comportamento do pincel de forma geral. Veremos agora os principais formatos disponíveis no mercado (somente pincéis úteis para pintura a óleo.

3.1. Redondo
O pincel clássico tem formato redondo, que geralmente deixa rastros da mesma espessura a não ser que se empregue mudança de pressão enquanto se aplica a tinta. As marcas deixadas pelos pincéis redondos quando tocam o suporte, isto é o “começo” da pincelada, tem a característica de ser, claro, arredondada. Mas eles podem ser “arrumados” para que fiquem com o “bico” ou ponta com uma protuberância muito fina e pontiaguda, útil para fazer linhas finas e pequenos detalhes. O mesmo pincel, pode ser “modelado” com a ponta dos dedos para “abrir” suas cerdas e adquirir uma forma mais bojuda (como na foto abaixo), ficando consideravelmente mais grosso e podendo assim dar pinceladas mais grossas, cobrindo uma faixa maior quando arrastado. Mas essa modelagem só é possível em alguns tipos de pêlos, que veremos adiante. Os pincéis redondos também são encontrados em versões longas e curtas em comprimento dos pêlos. Os mais longos dão uma sensação de serem mais macios do que os curtos, embora seja uma mera questão do comprimento das cerdas. Os muito longos são difíceis de controlar a tinta, e os mais curtos oferecem maior controle, apesar de resultar em efeitos mais duros.

Pincéis Redondos: Clássico

3.2. Chatos (Flats)
O pincel chato possui ferrolho achatado, para enfileirar as cerdas de forma que lembre uma pequena vassoura, com a “ponta” das cerdas arrumada perfeitamente de forma quadrada. É particularmente interessante pois as cerdas arrumadas nessa maneira cobrem uma área maior, sem necessariamente ter de usar uma quantidade grande de cerdas no pincel.

Pincéis Chatos

As formas e marcas dos pincéis chatos tendem a ser mais duras e geométricas do que dos pincéis redondos. Se um artista costuma dar pinceladas curtas e contidas, a forma do pincel chato é muito evidente. Isso pode contribuir para certos efeitos de pintura que não seriam atingidos usando um pincel redondo.

Pincéis Chatos longos.

Existem marcas que oferecem os pincéis chatos em vários comprimentos, desde muito curtos até muito longos. Assim como os redondos muito longos, os chatos muito longos tendem a “dançar” mais, e são mais difíceis de ser controlados, causando efeitos completamente diferentes dos curtos. Os pincéis chatos de cerdas curtas são chamados de “Brights” por algumas marcas nos EUA.

Pincéis “Brights” (Chato, bem curto).

3.3. Filbert (Língua de Gato)
Alguns pintores gostam muito dos Filberts pois são pincéis polivalentes. Eles podem fazer pinceladas que combinem as formas dos chatos e dos redondos num único pincel. Aplicando a tinta somente com a ponta temos um efeito de linha fina e com aplicação de maior pressão, temos marcas de um pincel chato. Essa interessante variação também pode surtir pinceladas que começem de maneira fina e terminam de maneira grossa, criando efeitos interessantes. Existem muitas variantes nas formas dos Filberts, mas a premissa é que seja um pincel chato com uma ponta ou “bico”. Existem marcas que fazem pontas mais extensas enquanto outras fazem praticamente um pincel chato com uma leve extensão ao fim. Filberts também são encontrados em versões um pouco mais longas e versões um pouco mais curtas.

Pincéis “Filberts”.



3.4. Pincel Leque (Fan Brush)
Embora esse tipo de pincel seja famoso nas escolas de pintura de paisagem para “criar folhagens”, essa não é exatamente sua função, embora possa ser usado para isso. A principal função do pincel Leque é para “espanar” tinta, ou arrastá-la de forma sutil e delicada. Muitas vezes, dependendo da técnica, é necessário que a tinta seja delicademente arrastada ou espanada de forma a se espalhar na superfície criando uma finíssima camada de tinta. É praticamente uma velatura mais seca, onde ao contrário de se cobrir uma área com tinta de forma uniforme, a tinta é “empurrada” numa ação de espalhar de forma mais seca as partículas de pigmento. Esse pincel é util nesse caso, devido a sua pouca quantidade de cerdas, que permite encostar no suporte e espanar a tinta exercendo pouquíssima pressão.

Pincéis Leque

3.5. Trincha
As trinchas são pincéis chatos e muito largos, com generosa quantidade de cerdas. São geralmente aplicadas em obras grandes, onde se quer cobrir uma extensa área de maneira chapada. A principal característica das trinchas, além de seu tamanho, são os cabos robustos e pesados, para que a ação de espalhar grande quantidade de tinta sobre uma grande área seja mais confortável e com maior firmeza. É especialmente útil para aplicação de verniz, mas somente as trinchas de pêlos muito macios.

Trincha

3.6. Caligráficos (Liners)
Os pincéis caligráficos são usados exatamente para o que seu nome sugere: caligrafia. Muitas vezes é necessário escrever algo ou representar numa pintura letras de rótulo, pequenas letras cursivas, e trabalhos que necessitem muitas linhas retas. Os “liners” podem ser encontrados em muitos comprimentos, sendo cada vez mais difícil controlá-los a maneira que seu comprimento fica maior. Os liners que não são extremamente longos são especialmente úteis para fazer extensas linhas retas (assim como sugere seu nome em inglês) e para detalhes finos e precisos. Não existem liners de pêlos duros, somente feitos com pêlos nobres e macios.

Caligráficos: “Liners”.

4. Tamanho das Cerdas
É bom lembrar que pincéis de pêlos longos serão naturalmente mais macios do que pincéis com o mesmo tipo de pêlos porém curtos. Além disso, pêlos muito longos oferecem uma série de características que podem ser aproveitadas. Os pincéis de pêlo demasiadamente longos (sobretudo aqueles de cerdas moles e naturais) absorvem e carregam mais tinta, portanto, são capazes de oferecer pinceladas mais longas, que se alastram por mais tempo que os pincéis de pêlo curto ou médio. A sua segunda característica mais importante é que tendem a criar maior imprevisibilidade durante o trabalho, pois como as cerdas são demasiadamente compridas, a ponta do pincel tende a “dançar” ou ficar “solta” durante a pincelada, a área onde temos maior controle é na base das cerdas, próximo ao ferrolho. É essa área que melhor obedeçe a pressão. Por isso, temos menor controle e tendem a deixar marcas mais soltas. Muitos artistas gostam dessa imprevisibilidade em seu trabalho. Os pincéis de pêlos curtos oferecem maior precisão no controle do pincel e deixam marcas mais “mecânicas” e menos aleatórias, pois são mais fáceis de controlar do que os pincéis de pêlos longos.

5. Memória
É importante que se diga uma das características que está relacionada ao tipo de pêlo dos pincéis. Chamamos de “memória” a habilidade que o pêlo possui para voltar a seu estado original depois de dobrado, torcido ou pressionado. Não se trata exatamente de elasticidade, mas uma outra espécie de propriedade de resistência inerente a seu pêlo, chamada de “snap” nos EUA, a característica de deformar mas rapidamente voltar a sua forma original . Se um pincel é pressionado para exercer uma aplicação não pode continuar nesse estado deformado, precisa de memória suficiente para aguentar todo tipo de tarefa, durante longo prazo e voltar a sua forma original.  Os melhores pincéis possuem essa característica. Aqueles que deformam e demoram a re-adquirir suas características originais não são adequados para a pintura a óleo.

6. Tipos de Pêlos
É o tipo de pêlo que ajuda na tarefa de absorver a carga de tinta, na resistência que faz ao arrastar a tinta, no tipo de marca que deixa, o tipo de memória que possui e na forma como o pincel responde a pressão da mão. Muita gente tende a escolher seus pincéis pelo preço, ou pelo tipo de pêlo, mas sem realmente entender um ponto importante. O tipo de pelo a ser usado estará diretamente relacionado com a consistência da tinta que se faz us.

Portanto, quando escolhemos um pincel para pintura a óleo, a primeira pergunta que devemos fazer é: “Qual a consistência de tinta que uso?”. É simples: se sua tinta é bem líquida, voce precisa de um pincel que consiga absorver substância líquida de maneira adequada, além de arrastar delicadamente a substância. Se o pincel tiver muita força, ou muita resistência (dureza) dos pêlos, ele deixará marcas. Se voce usa tinta grossa, voce precisa de um pincel que faça considerável resistência, caso contrário, as cerdas não terão força para empurrar a substância. A premissa básica é essa.

6.1. Pêlos Naturais Duros
Os pêlos naturais mais comuns são produzidos com inúmeros tipos de pêlos de animais, sendo o mais comum (e o melhor) o pêlo de porco (Bristle), retirados das costas do animal. São produzidos nas mais diversas regiões, mas os melhores pêlos vem da china, com elasticidade e durabilidade muito superior aos outros. Mas isso não quer dizer que todo pincel chinês de cerda de porco seja feito com “os melhores”, pois na verdade, as cerdas de porco de qualidade são todas vendidas aos EUA e aos europeus.

Pincéis redondos “Bristles” alvejados

As cerdas desse tipo de pêlo são naturalmente “divididas” ou quebradas nas pontas, formando um cerda que possui várias terminações. Isso faz com que retenha mais tinta. Há pincéis de pêlo de porco de côr natural (branco levemente amarelado) e também os de pêlo de porco alvejados, resultando numa cerda perfeitamente branca. Os Bristles mais macios, as vezes são chamados de Camels, mas não possuem nenhuma familiaridade com os camelos, que possuem pêlos muito irregulares e sem memória.

São particularmente úteis para arrastar tinta óleo grossa, sem adição de medium, e também podem ser usados para tinta acrílica. É o pincel certo para arrastar tintas “teimosas”, com pouca mobilidade, e para fazer block in de pinturas alla prima. Para os pintores que gostam de textura e que preferem deixar aparente as ranhuras do pincel, essas são as cerdas ideais, resultando em trabalhos soltos e repletos de textura. É muito mais difícil conseguir pinceladas rústicas e agressivas com pêlos macios. Mas é sempre com estar atento. Apesar das cerdas de porco serem geralmente duras, algumas cerdas naturais são mais macias do que outras, e não é raro encontrar cerdas de porco mais moles do que de costume.

6.2. Pêlos Naturais Macios
Os pincéis de pêlo macio mais úteis para a pintura a óleo são os de pêlo de boi. Geralmente extraídos da orelha do animal, os pêlos de boi são macios, embora grossos. Sua a grande vantagem é que são extremamente resistentes, e dificilmente se rompem ou ficam danificados. São muito polivalentes pois servem para trabalhos com tintas mais grossas (semi impastos) assim como para tintas líquidas com adição de medium e velaturas. Em compensação, apesar de aplicarem ambas consistências de tintas, não são exatamente perfeitos para tintas líquidas e velaturas, nem para impastes e tintas grossas, servindo melhor a técnicas de pintura alla prima, com tintas de linha estudante diretamente do tubo, talvez com pouca adição de medium. Não são pinceís comuns nos EUA, mas particularmente populares no Brasil e na China. São de cor marrom clara avermelhada, com diversas cerdas mais claras e outras mais escuras, com baixo custo.

Pêlo de Boi

O pêlo de esquilo é mais macio do que o pêlo de boi, possui certa variação de maciez devido a grande quantidade de diferentes espécies do animal e geralmente chegam perto da maciez dos pêlos nobres, ficando entre um pêlo macio e pêlo “quase” nobre, mas possuem menos memória do que esses. Por esse motivo, pincéis de pêlo de esquilo são geralmente melhores quando feitos com boa quantidade de pêlos, geralmente em pincéis de número alto (12 a 30) ou trinchas, pois a quantidade de pêlos somados exerce alguma força de sustentação ao todo, melhorando sua memória. O preço alcançado por alguns pincéis de pêlo de esquilo é próximo aos preços de pêlos nobres, valendo mais a pena em alguns casos, optar pelo segundo. São geralmente de cor escura, podendo variar os tons. São melhores para tintas mais líquidas de linha estudante, com uso de medium.

Pêlo de Esquilo.

6.3. Pêlos Naturais Nobres (Extremamente Macios)
Os pêlos nobres são provenientes das sub-espécies dos Mustelídeos, animais de pequeno porte geralmente de patas curtas, corpo alongado, rabo longo e seu habitat mais comum, mas não único, são as regiões frias. São animais mais comuns na região do leste europeu, embora o Canadá seja hoje um grande fornecedor de pêlos de mustelídeos. Algumas sub-espécies são o mink, vison, lontra, glutão, arminho, texugo, sable (marta), furão, fuínha, doninha, ariranha e o ferret, para citar alguns. O mustelídeo mais comum no Brasil é a ariranha, comum na bacia amazônica e no pantanal.

No caso dos animais europeus como os Sables (chamados de Marta no Brasil), os pêlos são os mais caros do mundo. Além se serem extremamente macios, poussem grande elasticidade, excelente memória e não deformam. A maioria dos pêlos nobres são geralmente retirados da ponta do rabo do animal, onde crescem em tamanho maior do que em qualquer outra parte do corpo. Os pêlos são geralmente retirados dos machos, durante o inverno. Muita gente acredita que a indústria retira os pêlos de animais ainda vivos, e que os mesmos continuam em cativeiro para que a pelagem volte a crescer, mantendo o animal vivo, mas é difícil comprovar o mesmo.

Pincéis redondos de pêlo macio: Sable.

A maioria dos produtores de pincéis se recusam a fornecer informações sobre o assunto, e somente uma das empresas estrangeiras consultadas admitiu extrair os pêlos das peles de animais mortos. Fica subentendido que a compra do material é feita por intermédio de profissionais que abatem os animais. O assunto é polêmico e cheio de tabus, não cabe aqui uma discussão sobre o tratamento dado a esses animais ou sobre esse processo de extração, que certamente tornaria-se um outro tipo de artigo.

O pêlo de Mongoose é mais adequado para tintas com mais corpo, pois tem maior resistência (mais duro) que os Sables, com estupenda memória, porém não são muito flexíveis. Mais indicados para tintas mais encorpadas ou com menos mobilidade corpórea, assim como tinta direta do tubo sem adição de medium.

Mongoose Amarelo

Os Sables (e suas inúmeras variantes: branco, preto, prata, azul, vermelho, etc) e o Kolynsky são ideais para tintas mais líquidas e menos pastosas, no emprego de velaturas e trabalhos extremamente delicados, para aplicações usando algum tipo de medium que deixe a tinta mais móvel, menos dura, assim como tintas a óleo artesanais. São de maciez incomparável, também usados para aquarela por causa dessa mesma característica. É comum escutar que, sendo o Sable o “melhor pêlo do mundo”, é indicado a qualquer artista.

Sable comum do leste Europeu

Mas isso não é completamente verdade. Mais uma vez, uma “romantização” dos produtos excepcionalmente caros e a paixão pelo “exótico” controla os pintores que acreditam nisso. Os pelôs de Sable branco, negro, prata, azul, vermelho ou Kolinsky (Sables da península de Kola) possuem uma função muito específica: aplicação delicada de tinta que possua boa fluidez. Sendo assim, ele não é o “melhor pêlo do mundo” para aplicar impastos ou trabalhar com tintas mais densas. Se o seu trabalho não necessita de aplicações delicadas e sua tinta é pastosa ou com corpo denso, não há necessidade do uso desses pincéis.

Um bom exemplo, são artistas que trabalham com as marcas de tintas Williamsburg, Old Holland, Vasari ou Michael Harding´s, que devida a alta carga pigmentária, possuem textura arenosa quando usadas diretamente do tubo sem adição de medium. Nesse caso, comprar pincéis de pêlo Kolinsky, sobretudo quando se usa pintura indireta, não vale a pena. Se o artista gosta da sensação só alcançada com pêlos macios, o Mongoose pode ser mais adequado para esse tipo de tinta. Os Sables estão diretamente relacionados com a pintura em camadas que faz uso abundante de velaturas finíssimas. É por esse motivo que também é um grande favorito pelos aquarelistas, que usam tinta extremamente líquida.

Sable Vermelho (Red Sable).

No Brasil, a Tigre produz pincéis artísticos feitos com pêlos de “Marta Tropical”. Sempre achei o nome um paradoxo, sendo que as “Martas” (Sables) são animais de regiões frias. Os pincéis de Marta Tropical são na verdade um blend de vários tipos de pêlos naturais, criado para simular a maciez do pêlo de Marta original. É um pincel muito bom, com execelente custo benefício, cumprindo o que promete. Possui menos “memória” do que os pincéis Sables originais, mas a maciez é muito próxima. A Tigre não disponibiliza maiores informações sobre o tipo de pêlos usados nesse blend.

Marta Tropical, da Tigre.

6.4. Mistos
Os pincéis de pêlos mistos são feitos da combinação de diversos tipos de pêlos naturais, combinando as diferentes características dos pêlos para resultar em maciez, memória, retenção de tinta e durabilidade customizados. É comum por exemplo, a venda de pincéis com um blend de Sable e esquilo, servindo para baratear o custo do pincel. O pincel de Marta Tropical, da Tigre, é um exemplo de pêlo misto.

6.5. Sintéticos
Geralmente uma parte dos produtos oferecidos em cerdas sintéticas, que promotem imitar as cerdas naturais, não cumprem o que prometem, e são duros demais. Mas hoje, alguns simulam os naturais quase perfeitamente. Uma das teóricas vantagens dos sintéticos, são a de que seriam mais duradouros. Minha única experiência, é a de comparação do Mongoose natural com o sintético. Em termos de conservação e durabilidade, o sintético é certamente mais duradouro, mas no entanto, é um pouco mais duro, e tende a conservar resíduos de secantes e resinas. Os sintéticos deveriam baratear a oferta de pincéis macios e nobres no mercado, no entanto, vejo que em alguns casos, isso não ocorre. Algumas variantes sintéticas possuem praticamente o mesmo preço do material natural. Uma observação importante, é que os sintéticos são opções interessantes aos pintores que preferem boicotar a indústria que faz uso de pêlo animal.

7. Tamanho do Cabo
O tamanho do cabo está relacionado ao modo como se pinta. Se voce precisa de pincéis para fazer pequenos detalhes minuciosos, é bom que o cabo seja curto, para não atrapalhar a atividade. Se voce pinta em “blocos” de cores, de modo solto e expressivo, é melhor que consiga pintar esses blocos de maneira que consiga vê-los de longe, enquanto pinta, portanto, cabos longos são ideais.

8. Durabilidade
Não existem pincéis que durem toda uma vida. O que determinará a vida útil de um pincel é a qualidade das cerdas, o sistema empregado para fixar as cerdas no ferrolho, a técnica de pintura usada com os pincéis, a frequência com a qual esse pincel é usado e a maneira e produtos empregados em sua limpeza. Para conservar as cerdas, deixar o pincel descansando em óleo vegetal não é uma pratica incomum, mas destrói o sistema de fixação de cerdas no ferrolho.

Apesar da limpeza ser fundamental para que o pincel esteja sempre em boas condições de uso e não seja corroído e desgastado pelos produtos de pintura (terebentina, partículas de pigmento, solventes, secantes, etc), é importante que saibamos que a própria ação de limpeza desgasta os pincéis. Principalmente as limpezas profundas e agressivas. O melhor, é sempre aplicar o processo de limpeza de forma delicada e com produtos de baixa agressividade. Para artistas que produzem constantemente, de modo diário, limpar os pincéis pode significar perdê-los em pouco tempo. Lavando-os profundamente, em uma base diária, agride a fixação no ferrolho e também deforma e quebra suas cerdas.

Para a limpeza, não é necessário nenhum tipo de produto especial. Retire o excesso de tinta com um pano ou papel toalha. Em seguida, faça uma lavagem inicial agitando o pincel em pouco de terebintina bi-destilada e limpe o excesso num pano. Para limpá-los mais profundamente, aqueça um pouco de água, suficiente para deixá-la morna, e esfregue delicadamente um pouco de sabão de côco neutro nas cerdas, manipulando com os dedos as cerdas, embebidas na água morna. É possível deixá-los algum tempo de molho na água morna, mas isso não é muito bom para o ferrolho e para o sistema de amarras com cola que segura as cerdas no ferrolho. Caso opte por essa lavagem mais profunda, deixe que o pincel seque de cabeça para baixo, para que a água escorra na direção oposta do ferrolho. Seque bem as cerdas modelando-as para que adquiram novamente sua forma original.

9. Marcas
Hoje, falar sobre marcas e modelos de pincéis é complicado, pois o mercado oferece um número gigantesco de marcas. O leque de opções é tão grande e as marcas possuem padrões de qualidades tão similares que sugerir uma boa marca ou modelo de pincel se baseia muito mais numa questão de gosto pessoal do que em qualidade de fato. Um outro ponto interessante a se observar, é que a maioria das marcas trabalham com linhas diferentes de pincéis. Assim como as tintas, existem linhas profissionais, medianas e de estudante. O problema é que nem sempre o produtor indica qual o nível de qualidade de seus produtos e linhas, deixando para que o artista julgue por ele mesmo. Portanto, é importante que na hora da compra voce examine detalhadamente o pincel, e de preferência, compre alguns para testá-los.

Baseado em algumas predileções de mercado, sugiro algumas marcas e modelos de excelentes pincéis, que podem ser encontrados nas melhores casas de materiais de São Paulo, ou podem ser adquiridos via internet, através do site de lojas estrangeiras. Obviamente, esses não são todas as opções encontradas no mercado, e os artistas poderão encontrar uma infinidade de outras marcas e linhas tão boas quanto as sugeridas abaixo. Todos os pincéis escolhidos são de execelente custo benefício, nenhuma dessas linhas é extremamente cara.

9.1. Linha Estudante
9.1.1. Azanta Black (Bristles), Winsor & Newton.
As cerdas sintéticas duras desse Bristle de linha estudante são melhores do que as cerdas usadas nos pincéis nacionais, mas não são completamente perfeitas. O pincel costuma soltar e deformar cerdas com menor frequência do que o aceitável. Os cabos são sedosos e sólidos e os ferrolhos muito resistentes. É um excelente opção de custo benefício. Chatos, redondos, Filberts, em versões curtas e longas.

9.1.2. Linha Vermelha, Condor. 
Essa série de marca nacional é um bom pincel polivalente de pintura óleo. Os pêlos de orelha de boi avermelhados são de maciez mediana, tornando essas cerdas ideais para todo o tipo de tinta, com ou sem adição de medium. As cerdas são de excelente resistência, desgastam em médio prazo. Os ferrolhos são um pouco finos, não muito resistentes. Os cabos poderiam ser mais longos e com um verniz menos acetinado, pois tendem a grudar um pouco nas mãos. No entanto, tem um sensacional custo benefício. Chatos e redondos, em versões curtas e muito curtas (Brights).

É possível obter efeitos de velaturas com pincéis macios não necessariamente “nobres”. Por esse motivo, minha sugestão de pincéis de estudante não inclui pincéis macios fora os de orelha de boi. Acredito que o alto preço dos pincéis de pêlo nobre descartam esses produtos como boas opções para os iniciantes, estudantes e hobbistas.

9.2. Linha Profissional
9.2.1. Monarch, Winsor & Newton
Essa linha oferece pelos sintéticos de Mongoose, com maciez média, de excelente durabilidade. As cerdas dificilmente soltam-se. Os cabos são longos, com um excelente verniz que não derrapa e não gruda nas mãos. O acabamento do pincel é perfeito, com ferrolhos muito atraentes (poderiam ser mais duros) assim como o cuidado em sua aparência. É uma excelente opção para quem usa tintas direta do tubo, sem adição de medium, e sem secantes. Especialmente excelente para tintas com alta carga pigmentária como a Old Holland, Blue Ridge, Vasari, Williamsburg e Maimeri Puro. Para tintas mais líquidas, como Rembrandt, Mussini e tintas artesanais, as cerdas do Monarch podem ser um pouco duras. O produto é sensível ao uso de secantes e resinas, tende a reter o resíduo deixando as cerdas coladas e diminuindo sua durabilidade. Não use a linha de tintas Mussini com esse pincel se quiser conservá-lo por mais tempo. Chatos, redondos e Filberts em versões longas e curtas.

9.2.2. Pinctore Linha 316, Tigre
De longe, o melhor pincel nacional de pêlo macio, a série 316 é excelente em todos os aspectos. Boa qualidade e quantidade de pêlos de Red Sable, ferrolho excelente, não solta os pêlos, cabo com bom acabamento, verniz excelente, bom comprimento de cabo. É um pincel que costuma sumir das prateleiras, e quase nunca possui disponível os números que voce precisa. O ponto negativo do produto é o preço, que é alto, mas trata-se de um pincel duradouro.

9.2.3. Langnickel 5590, Royal
Os pêlos muito longos, qualidade e capacidade de absorção de tinta dessa série de pincéis norte americanos tornaram-o um blockbuster nos EUA entre os profissionais. O 5590 da Royal possui um blend misto de vários tipos de pêlos naturais, resultando numa maciez média para alta, uma ferramenta polivalente tanto para tintas diretamente do tubo quanto para tintas mais líquidas com adição de medium. Soltam pêlos em demasia e não são muito duráveis, mas em compensação são pincéis baratos e ótimos para pintar. Chatos e redondos em versões muito longas e curtas.

9.2.4. Series 279, Rosemary’s
A Rosemary´s (Inglaterra) fez uma versão sintética de Mongoose muito similar ao Langnickel 5590, conseguindo eliminar os problemas inerentes ao pincel concorrente. Os pêlos dificilmente se soltam, a qualidade da madeira, ferrolho e do acabemento em geral é superior aos da linha da Royal, e os pêlos são muito similares, mesmo sendo uma versão sintética. É uma grande escolha de pincel polivalente de bom custo benefício.

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BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
WARD; James; History and Methods of Ancient & Modern Painting; 1919.
GOTTSEGEN, Mark David; The Painter´s Handbook; Watson Guptill; 1993.

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