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Semicerrando os Olhos

Durante nossas aulas de nosso curso de Pintura Clássica, tanto em sua versão presencial quanto online, ensinamos alguns métodos de observação importantíssimos para o desenvolvimento de nossos exercícios. São métodos que nos fazem perceber aquilo que estamos observando e tentando pintar de uma maneira diferente, mudando nossa percepção e possibilitando detectar erros e pequenas diferenças importantes entre aquilo que estamos observando e aquilo que estamos pintando.

Um desses métodos é o semicerrar dos olhos, técnica que deve ser sempre usada durante sua sessão de pintura. Praticada há centenas de anos nos ateliês europeus, a técnica foi passada oralmente pelos grandes Mestres a seus pupilos, e apesar de não ser comumente encontrada em livros de pintura, é usada por todo grande pintor naturalista até os dias de hoje, em todas as grandes escolas e ateliês de pintura.

Se voce tem curiosidade sobre técnicas de pintura e costuma assistir video-aulas no YouTube, repare nos mais famosos orientadores enquanto pintam. David Leffel, Greg Kreutz, David Kassan, Morgan Weistling, Jeremy Lipking, Steven Assael, entre muitos outros, todos eles podem ser vistos em suas video-aulas semicerrando os olhos, em vários momentos, para observar aquilo que estão tentando pintar.

Se você nunca usou esse procedimeto, sugerimos que sempre o faça a partir de agora. Há no entanto, algumas considerações teóricas que devemos ter em mente quando colocadas na prática, para seu melhor aproveitamento.

1. Como Fazer
É muito simples: ao observar o objeto a ser pintado, isto é, a referência fotográfica ou ainda objetos ou pessoas que posam para o artista, semicerra-se os olhos para observar o objeto. Faça como na figura abaixo, semicerre os olhos e observe atentamente sua referência fotográfica ou o modelo.


Artistas com alto grau de miopia podem optar por simplesmente retirarem seus óculos e tentarem enxergar o modelo com sua visão naturalmente embaçada. Pode não funcionar exatamente como o semicerrar dos olhos, portanto, é sempre interessante experimentar ambos.

2. Efeitos
Na prática, o que acontece é que semicerrar os olhos diminui a recepção de luz nos olhos, tornando tudo mais escuro, eliminando a informação da \”imagem\”. Mas por que isso é importante?

2.1. Simplificação de Formas
Quando pintamos, é comum tentarmos nos agarrar aos detalhes daquilo que observamos, mas quando começamos uma pintura, não é momento de nos preocuparmos com detalhes, eles devem ser aplicados somente no final da pintura. No começo do processo, devemos nos ater ao que chamamos de grandes formas.

Ao fechar as pálpebras o pintor não consegue mais enxergar detalhes finos e pequenas formas delicadas e passa a enxergar somente grandes formas e áreas largas, a estrutura elementar que forma a imagem. Portanto, ao semicerrar os olhos, limpa-se tudo o que é supérfluo, simplificando, condensando a imagem e tornando mais fácil de se estabelecer somente o que é estrutural ou fundamental.

Esse é o primeiro efeito causado pelo semicerrar dos olhos, sendo fundamental para nos ajudar a ter um inicio de pintura mais assertivo.


2.2. Contraste
O segundo efeito é reforçar o contraste da visão, tornando mais óbvio os limites entre meio-tom, sombras e luzes, tornando mais fácil detectar essas áreas e assim pintá-las.

Por exemplo. Quando semicerra-se os olhos, é mais fácil encontrar as formas principais das sombras mais pesadas ou escuras, por que o contraste faz com que elas fiquem ainda mais escuras tornando seu desenho ou demarcação mais fácil de se detectar. O mesmo acontecerá para os meio-tons e para as luzes, a visão mais turva contrasta ainda mais as diferenças e torna as formas mais fáceis de se identifcar.


Para julgar melhor as relações de valor ou a cor do que se observa, a ação de semicerrar os olhos muda nossa percepção do campo imagético e nossa compreensão visual: cria-se maior contraste entre as massas de valor e cor.

 
3. Em quais momentos devo Semicerrar os Olhos?
É notável o quanto a ação de semicerrar os olhos é especialmente fundamental no começo da pintura e no final do processo. Primeiro, quando o artista tenta estabelecer as linhas que desenham as grandes formas como meio de começar a pintura. Em segundo, quando o artista tenta finalizar toda a imagem, estabelecendo uma harmonia que une todos os elementos.

Também vale a pena tentar pintar com os olhos semicerrados. Isto é, depois de observar  a referência ou modelo com os olhos semicerrados, continuar semicerrando os olhos quando o artista muda a direção de sua visão para a pintura. Pintar com os olhos semicerrados por alguns minutos pode ajudar o artista a blocar as formas de um modo livre, vigoroso e sem medo de ser geométrico e estrutural, obrigando que não se importe em pintar detalhes ou ser metódico e delicado num momento em que não é preciso operar dessa maneira.

Lembre-se que não é necessário pintar o tempo todo semicerrando os olhos. É uma ferramenta auxiliar, isto é, algo que pode ser usado para colocar em prova aquilo que foi executado, ou que está sendo executado. Um modo de averiguar se tudo faz sentido, de detectar erros. É claro que aquele que averigua mais vezes, melhora um maior número de áreas.


4. Conclusão
Não subestime o poder dessa ferramenta. Faça uso da mesma em todas suas pinturas, em todos os momentos do processo, mas principalmente no ínicio e no final. A falta de uso dessa técnica gera obras com menor relação com a imagem observada na realidade, impedindo que o observador acredite na sua tridimensionalidade. Depois de muitos anos dando aula tornou-se absolutamente claro como o emprego dessa ferramenta muda completamente a qualidade de assertividade de nossos alunos.

A ação também funciona para a “vista cansada”, momentos em que o pintor está a muitas horas pintando e “não enxerga” mais o que fazer. O cérebro pode cansar de tentar mapear exaustivamente uma imagem. Semicerrar os olhos é um meio, entre muitos, para observar as formas de uma nova perspectiva. É na mudança para um novo ponto de vista que podemos observar a imagem com um novo olhar.

Se você quer entender ainda mais sobre as técnicas tradicionais de pintura e as propriedades dos materiais históricos de pintura, clique e veja nosso Curso de Pintura Clássica.
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