Usando Solventes e Outros Veículos

Uma das perguntas mais frequentes que recebemos de nossos alunos é “como faço para misturar o solvente na tinta?“. Embora possa parecer elementar, é na verdade uma pergunta fantástica, por que na realidade muitos artistas fazem essa operação de modo pouco prático. O objetivo desse artigo é explicar a questão de modo claro e objetivo, tirando a dúvida tanto de pintores iniciantes quanto a pintores experientes.

É muito importante que o leitor compreenda outros conceitos básicos da pintura, explorados em artigos anteriores. A grosso modo, é importante que o leitor saiba que a tinta óleo, sendo pastosa, pode ser usada de forma diluída se o artista desejar, tornando-se mais líquida para que possa alcançar determinados efeitos. Para entender mais detalhadamente sobre isso, leia o artigo “Por que Diluir a Tinta a Óleo” antes de ler o artigo a seguir. A seguir, vamos definir os tipos de solventes usados para a diluição de tinta, para depois, analisarmos como usá-los.

1. Veículos
Um veículo é toda substância que dá alastramento para tinta. Dentre os veículos da tinta óleo, temos duas substâncias comumente usadas: os solventes e os óleos vegetais.

1.1. Solventes
Os solventes são veículos voláteis, isto quer dizer que evaporam sem deixar rastro ou corpo. Para saber mais sobre os solventes, leia nosso artigo “Solventes” e também “Pintando sem Solventes“. O segundo artigo citado trata sobre a hipótese, totalmente válida, de não se usar solvente para diluição da tinta, assunto pouco difundido.

1.2. Óleos
As óleos vegetais tambem são veículos usados na tinta óleo para diluir a tinta a óleo, no entanto ele possui de maneira geral duas características diferentes dos solventes: em primeiro lugar, ele não é um volátil, pois não evaporam, por sua vez, ele oxida e forma uma filme elástico, uma capa plastificada que forma o que chamamos de tinta a óleo. Em segundo lugar, sendo uma substância oleosa, faz com que a tinta seque mais devagar. Existem pelo menos quatro tipos de óleo vegetais usualmente usados na tinta a óleo, sendo os mais tradicionais, a linhaça e o óleo de nozes. Para entender com mais propriedade sobre esse assunto, leia nosso artigo “Óleo de Linhaça Vs Óleo de Nozes“.

1.3. Medium
Outro tipo de veículo é a concatenação de várias substâncias, formando o que chamamos de medium. Uma mistura contendo um tipo de solvente mais um tipo de óleo vegetal nos dá um medium. Ele tambem pode ser usado como uma substância mais complexa do que simplesmente um solvente ou simplesmente um óleo para diluir a tinta a óleo. Para informações mais detalhadas sobre o que é um medium, leia nosso artigo “Medium” e também “Quantidade de Medium”.

 
Preparando medium em godê para veículo
 

2. Modos de Uso
Sendo a principal propriedade dos veículos diluir a tinta a óleo, é necessário adicionar o veículo desejado a tinta que será usada. Há pelo menos duas maneiras adequadas de fazer isto, discutidas a seguir.

2.1. Reservando o Veículo no Godê
Antes que qualquer operação seja feita para diluir a tinta com solvente, é preciso preparar o veículo para uso. A maioria dos veículos são vendidos em frascos de 100 ml ou com conteúdo ainda maior. Para tornar a operação de diluição mais prática, adiciona-se a quantidade de veículo a ser usada na diluição num godê próprio para veículos, uma espécie de invólucro feito de metal ou plástico. Existem inúmeros modelos, com tampa de rosca, sem tampa, duplos, e uma infinidade de outros. Na foto desse artigo, mostra-se um godê de metal duplo, sem tampas. É sempre bom fazer uso de um godê com tampa, pois nos momentos em que o artista não faz uso do veículo, ele pode ser fechado evitando sua evaporação.

2.2. Adicionando diretamente na Tinta
Uma maneira de diluir a tinta usando veículo é através da adição direta do veículo na tinta. A ação consiste em colocar a tinta a óleo a ser usada numa paleta, recolher um pouco do veículo do godê com uma espátula ou com um conta gotas e pingar, gota por gota, o veículo na tinta. O uso da espátula pode não ser muito prático pois ela não é a ferramenta certa para o trabalho, embora seja possível usá-la com paciência. O conta gotas é ideal nesse caso.

Mesmo que o artista faça uso do conta gotas, é importante que se misture bem o veículo com a espátula para que ele seja misturado de forma homogênea na tinta. É importante lembrar que caso haja solvente em seu medium, ele irá evaporar rapidamente depois de misturado a tinta, que permanece em contato com o ar enquanto descansa na paleta. Portanto, é necessário repor o veículo na porção de tinta caso seja necessario que ela continue diluida.

2.3. Carregando com Pincel
Uma segunda maneira, mais usual, é carregar o pincel com um pouco de veículo do godê e em seguida, misturar um pouco do veículo na tinta que se encontra na paleta. Dessa maneira, dilui-se a tinta, mas é necessário recolher novamente mais veículo conforme o mesmo evapora na paleta e a tinta torna-se novamente pastosa.

3. Conclusão
Note que o segundo método, que faz uso dos pincéis para recolher o veículo do godê e misturá-lo a tinta, é danoso aos pincéis, sendo que a ação de constante mistura de tinta acaba por quebrar suas cerdas, sejam elas sintéticas ou naturais. Essa operação também acaba sujando o conteúdo do godê com tinta, desde que a maioria dos pintores acaba pintando com o mesmo pincel com o qual “pega” o veículo no godê.

Para evitar contaminar o godê com tinta, é possível limpar o pincel com um tecido antes de carregá-lo com veículo. Uma outra maneira de manter essa operação mais limpa, é ter um segundo godê que será usado somente para limpar os pinceis, mantendo-os sempre limpos entre os carregamentos de tinta ou veículo. O conteúdo do segundo godê passa a servir somente para diluir a tinta, permanecendo sempre límpido.

Nesse aspecto, o primeiro método é mais vantajoso do que o segundo, sendo que mistura de modo mais homogêneo a tinta ao solvente e poupa os pincéis. Em compensação, a inconveniência vem do fato de ser necessário adicionar mais veículo a tinta sempre que o mesmo evaporar.

Quaisquer um de ambos os métodos é válido, contanto que mantenha-se a limpeza do conteúdo do godê para que o veículo não contamine-se com tinta e que o veículo seja misturado de modo homgêneo.

Se você quer entender ainda mais sobre as técnicas tradicionais de pintura e as propriedades dos materiais históricos de pintura, clique e veja nosso curso de Pintura Clássica: PRESENCIAL ou ONLINE

BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
MITRA; Materials Information & Technical Resources for Artists; 2020.

6 Comments

  1. Obrigado por compartilhar. Agora está mais do que esclarecido a diferença entre cada um. Fica o teste pessoal para saber qual método é o ideal para cada artista.

  2. Uma solução que encontrei para não sujar o godê é usar vários pinceis limpos para cada cor. Pode não ser tão prático para alguns mas a vantagem é que vc não precisa se preocupar em limpar o pincel durante a pintura.

  3. É uma outra saída. Embora como voce mesmo disse, acaba sujando uma grande quantidade de pincéis. Mas, o que funciona para um nem sempre funciona para outro, é sempre bom divulgar outras possibilidades! Obrigado por compartilhar Roberto! Grande abraço!

Deixe uma resposta