Ícone do site Cozinha da Pintura

Pigmentos Não Permanentes

Cada pigmento é composto de uma ou mais substâncias orgânicas ou inorgânicas. Essas substâncias atribuem ao pigmento características de cor, textura, absorção de óleo, tempo de secagem, permanência e outras. A permanência é questão fundamental, pois determina a durabilidade do pigmento. Isto é, por quanto tempo a cor do pigmento se apresentará viva, em sua forma mais intensa. Imagine que um artista decida que determinada área de uma pintura deverá ser de um tom violáceo muito intenso. Imagine então, que após cinco ou seis anos, toda essa área transforma-se num cinza violáceo, perdendo completamente sua vibração e intensidade. Temos então, uma obra que além de estar agora descaracterizada com a concepção original do artista, destoará em sua harmonia cromática como um todo.

Até não muito tempo atrás, grande parte das cores a óleo ao longo dos anos acabavam por esmaecer perdendo sua tonalidade, principalmente as cores mais vivas de vermelho e violeta. Não havia conhecimento suficiente para que esses pigmentos fossem substituídos por pigmentos sintéticos mais duráveis. Essas cores são consideradas pigmentos não permanentes ou “fugitivos”. Com o advento de novos conhecimentos químicos e científicos, foi possível substituir esses pigmentos por novas cores mais duráveis, permanentes. Para descobrir a durabilidade de certas substâncias foi necessário esperar alguns anos para que compreendessemos seus resultados, por esse motivo, alguns pigmentos descobertos entre as décadas de 40 a 70, tidos como permanentes, na verdade, não eram. Esses pigmentos não permanentes ainda são usados por algumas marcas de tinta. No entanto, não apresentam um claro aviso no rótulo. Teoricamente, os códigos de “índice de permanência” usados nos rótulos levam o artista a compreender a característica do pigmento. Mas não é bem assim.

Algumas marcas tendem a “super-valorizar” alguns pigmentos, dando índices de permanência descritos como “bom” a pigmentos sensíveis a luz. Poderíamos até sub-entender que esses pigmentos, de preço inferior aos permanentes, seriam indicados para serem usados em trabalhos de artesanato ou obras temporárias, evitando que o artista gaste com cores caras para esses tipos de trabalhos. Pessoalmente, acredito que a diferença de preço é tão ínfima que a economia a custo da durabilidade da cor não compensa, no caso de uma pintura a óleo.

1. Causas
Diversos fatores podem causar o enfraquecimento da cor nesses pigmentos. Em alguns casos, mais de um fator é necessário para que isso aconteça. No caso da perda de cor, a incidência de claridade abundante com raios ultra violetas é um dos fatores mais comuns que agem na estrutura molecular de certas substâncias modificando-as de forma que percam seus atributos originais e dessa forma, fazendo a cor ficar “apagada”. Mas não é somente a perda de cor que aflige algumas substâncias. Outros pigmentos possuem uma tendência natural a descascar ou craquelar, mostrando rachaduras com maior facilidade. Algumas substâncias quando aglutinadas no veículo tendem a formar um filme ou película mais duro ou inflexível do que outros pigmentos. Quando não há flexibilidade suficiente, o filme se rompe, formando as craqueluras. Existem ainda outros fatores, mas esses dois são disparados, os principais causadores desses defeitos.

Um fator agravante para que isso aconteça é o uso esparso desses pigmentos, isto é, quando os mesmos são usados em pinturas de camadas muito finas. Nesse caso, o esmaecimento ou “apagamento” da cor acontece de forma muito mais expressiva do que quando usadas em empastes.

2. Idiossincrasias de Matéria Prima
Esse é um assunto importante, e todo artista deveria sempre lembrar disso quando optar pelo uso de um pigmento: algumas substâncias químicas podem trazer o mesmo nome químico (como exemplo, o PY139, Isoindoline Yellow) mas podem ter sido criadas através de diferentes processos, resultando em substâncias com diferentes resistências de luz. Isso é um problema grande dentro do mercado de tintas, pois geram variantes que tornam alguns resultados imprevisíveis. Como exemplo da complexidade desse assunto:

Testei há quatro anos atrás uma cor da W&N que levava o código PY139 (Indian Yellow). Em meu teste, a amostra da tinta permaneceu em ceu aberto, tomando sol e chuva durante dois anos. A amostra apresenta forte descoloração, “sumindo” praticamente por completo. O elemento entrou automaticamente para minha lista de cores fugitivas. Há alguns meses atrás, um profissional com qual me correspondo há alguns anos me enviou os resultados de alguns de seus testes. Ele submeteu a mesma cor de tinta (Amarelo Indiano) a um teste semelhante, e apesar da cor e seu componente químico ser exatamente o mesmo, sua tinta era de outra marca. Em seu teste, a tinta permaneceu inalterada, mesmo depois de um ano debaixo do forte sol do Arizona, mostrando uma permanência indiscutível. Isso mostra como algumas substâncias podem variar seu comportamento de acordo com pequenas diferenças em suas estruturas derivadas do processo pelo qual foi fabricado.

Genericamente falando, algumas substâncias possuem com absoluta certeza tendências que não mudam, mesmo tendo proveniência diferente. Como exemplo, nenhum Branco de Zinco é mais flexível e menos quabradiço, todas as marcas são exatamente iguais. Nenhum Alizarin Crimson genuíno possui permanência excelente, todas as marcas apresentam “apagamento”, em diferentes níveis. Mas certas substâncias possuem diferenças, mesmo tratando-se de basicamente o mesmo elemento químico. Portanto, é sempre melhor considerar certas caracteristicas indicadas nesse artigo como “possíveis comportamentos”, mas não como regra. A complexidade da produção dessas substâncias torna o estudo de seu comportamento algo muito delicado.

É por isso que julgo dois procedimentos indispensáveis: testar a permanência dos pigmentos ou perguntar a opinião de algum artista que tenha usado determinado pigmento diversas vezes, de preferência durante alguns anos. É a única maneira de ter certeza sobre a durabilidade de certos pigmentos. Essa não é uma lista definitiva de todos os pigmentos não permanentes, mas uma apresentação de 5 cores inpermanentes amplamente usadas no mercado. É interessante que o artista tenha em mente essa lista e evite o uso das cores relacionadas aqui, ou em alguns casos, que saiba como contornar seus defeitos. Os pigmentos mais antigos, que não são mais encontrados amplamente no mercado (como exemplo, o Verdigris) não foram considerados por esse artigo, compreendendo somente aqueles pigmentos que ainda se mostram disponíveis.

Testes do Alizarin de diversas marcas: todos sumiram. By handprint.com

3. Pigmentos
3.1. Alizarin Crimson (PR83)
Esse pigmento compreende uma das “fugitivas” mais famosas. O Alizarin Crimson Genuíno (PR83), embora soe como algo pomposo, é na verdade um pigmento extremamente sensível a luz, ficando completamente lavado e em alguns casos tornando-se um rosa claro após quatro ou cinco anos, dependendo da quantidade de luz e do ambiente onde a obra ficou exposta. Muitos fabricantes conferem índice de permanência II para essa cor, ou até mesmo “excelente”, mas um simples teste de permanência revelará o contrário. Existem vários substitutos mais permanentes para essa cor, como o PR177, PR179, PR264 e o PV19. Embora vários fabricantes possam avaliar o PR177 como um excelente substituto, há indícios de que não é um pigmento cem por cento confiável, e além disso, sua cor é consideravelmente diferente do legítimo Alizarin, embora mais permamente. Dê preferência principalmente ao PV19, ou na ausência do primeiro, ao PR179, de todas as variantes, por hora, as mais confiáveis.

 

Pintura de Henry Cliffe, 1959. Branco de Zinco.
 
 
3.2. Branco de Zinco (PW4)
Branco extremamente transparente que tende a dar uma tonalidade fria e azulada quando usado em veladuras. Apesar de ser uma cor muito interessante e especialmente útil para finalidades em que o Branco de Titâneo não é indicado, uma série de artistas e pesquisadores tem alertado a comunidade artística sobre sua tendência inflexível. Trata-se de um dos pigmentos mais quebradiços disponíveis no mercado. Recomendável que nunca seja usado sozinho, mas misturado com pelo menos 60% de Branco de Titâneo. Nesse caso, a vantagem de misturá-lo ao Branco de Titâneo, além de minimizar as chances de craquelar a película, é conferir mais transparência ao branco. 
 
 
5. Violeta Escuro (Corfix)
 
3.3. Violetas (Vários)
A maioria dos pigmentos violetas são impermanentes, tornando-se azuis ou cinzas azulados com o passar dos anos e perdendo seus traços de magenta ou vermelho. Trata-se de uma das cores mais suscetíveis aos efeitos dos raios ultra-violetas. No melhor dos casos, são pigmentos de permanência II, índice sempre descrito com o adjetivo “bom”. Note que “bom”, não é “excelente”. Para algumas marcas, “bom” pode ser sinônimo de pigmento que perderá sua intensidade a longo prazo. Os melhores violetas são feitos com o Dioxazine Violet (PV23), no entanto, a procedência, processo de fatura e tipos de impurezas presentes no pigmento são responsáveis pelo seu grau de permanência. Portanto, é necessário testar várias marcas pois o fato de ser um PV23 não quer dizer que é totalmente permanente. Algumas marcas de tinta que levam o PV23 levam a informação no rótulo de que o mesmo possui permanência \”excelente\”, mas esmaecem levemente quando expostos por muito tempo a luz do sol. O Violeta Escuro da Corfix perdeu totalmente seus traços violáceos num prazo de quatro meses no teste de permanência.
 
 
Marrom Van Dyck
 
3.4. Marrom Van Dyck (PBr9 ou PBr8)
Alguns marrons que levam esse nome podem ser feitos com substâncias diferentes do material natural que recebe os índices de cor PBr8 e 9. Os que levam esses pigmentos são fugitivos pois tornam-se quebradiços. Quando usado em veladuras ou camadas muito finas, tende a perder a cor através dos anos, e quando usado de forma mais grossa (empastes) costuma apresentar pequenas fendas, formando craqueluras. Para tentar contornar esse problema da fissuras em particular, é interessante misturar uma cor “saudável” a essa tinta. Seguindo a lógica, mistura-se uma substância flexível (tinta “saudável”) a uma substância inflexível (Marrom Van Dyck). Quando misturado com outras cores, esses defeitos costumam ser minimizados. O mesmo pode ser feito ao Branco de Zinco. No entanto, no caso do Marrom Van Dyck, ainda acho mais prático substituir essa cor por outro pigmento, pois é perfeitamente possível chegar a um tom parecido com uma série de outras cores terrosas, tornando seu uso obsoleto.

 

 

 

 
Vermillions nacionais: 8. PR112 e 9.PR170
 
PR57 – Monoazo (Azo) – Van Gogh
Genuíno: escurecimento (embaixo)

 

3.5. Vermillion (Vários)
Famoso também como Vermelho Chinês ou Vermelhão, o Vermillion pode ser encontrado com uma infinidade de tons diferentes, dos mais claros para os mais escuros, e até dos mais frios para os mais quentes. O Vermillion de hoje não é mais feito com o Vermillion legítimo (PR106), pois o mesmo escurece rapidamente em contato com o sol, mas com substâncias mais modernas que modulam sua cor. Infelizmente, alguns desses substitutos não são melhores do que o original. Os vermelhos compostos de diferentes pyrols e naphtols são na verdade substitutos baratos dos Cádmios, todos inferiores, particularmente os pyrols. Há relatos da perde de chroma dos pigmentos PR188, PR170, PR57, PR254, sendo os dois últimos, os piores. Prefira o Vermillion (ou qualquer outro vermelho) a base de pigmentos de Cádmio (PR113) ou o Vermelho Cádmio Claro (PR108 ou sua versão com bario PR108:1). Alguns artistas consideram o Vermillion como insubstituível, devido a suas características reológicas únicas e muito diferente dos Cádmios: discussão para um post exclusivo. Caso não queira abrir mão dos Naphtols e Pyrols (como no caso do Vermelho Chinês), prefira o PR170, mas faça um teste de permanência. Os da Corfix (PR112 e PR170) apresentaram excelente permanência.
 
 
1. Amarelo Nápoles Carne – Corfix (PY74/PW4/PO13/PW6)
 
3.6. Tintas Nacionais
Um pigmento indicado como fugitivo em um dos meus testes é o Amarelo Nápoles Carne da Corfix. Não conseguiu testar separadamente os pigmentos coloridos que constituem essa cor (PY74 e PO13) mas ambos recebem índice de permanência II (“bom”) nos EUA. É possível que o elemento fugitivo da cor seja o pigmento PY74 e não o PO13, mas isso exige um estudo pormenorizado. Sugerimos que evitem o uso dessa cor.
 
4. Misturando Pigmentos Fugitivos a Outras Cores
Misturar um pigmento fugitivo a outra tinta “sadia” não faz dessa mistura uma cor permanente, pois os atributos de impermanência do pigmento são inerentes e ele, nada irá mudar. Uma vez detectado a não permanência de um pigmento, o melhor é usá-lo somente para pinturas de testes ou treinos, ou então substituir a cor fugitiva da paleta por uma cor permanente.

 

Se você quer entender ainda mais sobre as técnicas tradicionais de pintura e as propriedades dos materiais históricos de pintura, clique e veja nosso Curso de Pintura Clássica.

 

BIBLIOGRAFIA
THOMPSON, Daniel V. The Materials and Techniques of Medieval Painting; Dover; New York.
LAURIE; A.P.; The Painter´s Method´s and Materials; Dover; 1967.
DELAMARE; Guineau; Colors: The Story of Dyes and Pigments; Harry Abrams; 2000.
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847

Sair da versão mobile