Como Preparar as Telas

As telas nacionais são todas feitas em tecido de algodão com uma textura muito rústica e uma base ineficaz, sempre pouco adequada para uma pintura. Por isso, costumam absorver demais o óleo da tinta, que além de destruir a fibra vegetal da tela, faz com que sumam as pinceladas, ou nos melhores casos, que as pinceladas fiquem pouco perceptíveis. A tela quando adequada, além de não absorver tanto o óleo, também mostra de modo mais discreto os poros do tecido e torna as marcas e pinceladas de tinta mais perceptíveis, valorizando a estética pictórica. Por essas razões, é importante que o artista aprenda a fazer uma preparação adequada. 

A receita de preparação apresentada a seguir é uma versão mais prática e descomplicada do que a versão tradicional. Se você prefere materiais e procedimentos históricos, procure a receita de base tradicional em nosso site, embora seja importante lembrar que o método é muito mais complexo e demorado do que o método apresentado abaixo.

três principais estágios na preparação da base moderna: o primeiro estágio é a encolagem, que funciona como um isolante, evitando que o óleo seja sugado pela tela, produzindo uma superfície menos absorvente. O segundo estágio, que é a “base” em sí, dá acabamento, uma aplicação de uma ou mais camadas de gesso que irá tornar a superfície da tela um pouco mais lisa e menos texturizada, preenchendo parcialmente os poros do algodão. O terceiro estágio, dá cor para a base e se chama imprimatura

 
Preparando base em tela de linho
 
 

1. Encolagem (Size)
A industria de materiais artísticos norte americana sugere um substituto para as colas de proteína para que se faça a encolagem. A fabricante de materiais artísticos norte-americana Gamblin, sugere usar a cola PVA, um polímero de álcool polivinílico (PVA), substância resultante da hidrólise do acetato polivinílico (PVAc) como se fosse um selador, para que anteceda a camada de tinta tornando o suporte menos absorvente. Citamos o texto extraído do site da própria Gamblin, que indica o uso do material no lugar das colas tradicionais de proteína:

“Cientistas do campo da conservação recomendam aos pintores que usem uma camada de PVA com ph neutro como base para papéis e telas, ao invés da cola de pele de coelho. A base de PVA fornece uma camada estável que isola a tela, não sua e não encolhe como a cola de proteína. Isso se deve ao fato de que a base de PVA não re-absorve umidade atmosférica (como a cola de proteína).

O artigo Preparing a Canvas for Oil Painting escrito por Sarah Sands, pesquisadora de materiais artísticos da empresa norte-americana Golden, em 2013, cita que: 

“… alguns fabricantes agora oferecem seladores a base de PVA para serem usados na preparação de telas. Esses produtos devem proteger adequadamente as fibras (da tela) dos efeitos da oxidação do óleo.”

Aqui no Brasil, sugerimos que os artistas façam uso da cola PVA do tipo Cascorez Extra da marca Cascola (Loctite). No entanto, tanto a Golden quanto a Gamblin recomendam que a cola possua PH neutro, o que não é o caso de nenhuma das colas PVA do mercado brasileiro. Uma das poucas marcas vendidas no Brasil com PH neutro é da Lineco e tem um custo altíssimo. Portanto, se você realmente quiser garantir um desempenho superior na durabilidade do suporte, sugerimos que use uma cola profissional como da Lineco. Controlar o PH da cola comum é um método inferior, mas com custo mais realista: adicione duas colheres de sopa cheias de leite de magnésio para cada 500 g de cola PVA, para baixar sua acidez. Misture muito bem, para que o leite de magnésio fique misturado de modo totalmente homogêneo, caso contrário, a adição não terá o efeito desejado.

Além disso, é necessário deixar a cola mais líquida, adicionando 50% de água a cola e misturando com paciência, até que a mesma fique diuida de modo homogêneo. Com a tela deitada na horizontal, apoiada numa mesa, aplique a mistura, já diluída na água e com o leite de magnésio, usando uma trincha larga de cerdas duras brancas, passando a mistura de cola numa camada relativamente fina, não esquecendo de aplicar também nas lateriais e tendo certeza de que a cola não está ficando somente na superfície, mas que a mesma também esta penetrando nos “poros” do tecido. A trincha de cerdas duras é melhor do que uma de cerdas macias, pois empurra a cola com mais vigor, deixando a camada mais fina e penetrando melhor nos poros.

O tempo de secagem da cola PVA pode variar conforme a temperatura do ambiente, mas é necessário esperar pelo menos algumas horas para que fique seco completamente, sendo o ideal pelo menos 24 horas. Dependendo da temperatura, esse parâmetro pode mudar drasticamente, como num dia frio ou chuvoso.

Camadas muito grossas de cola podem demorar um tempo muito longo para secar, fazendo com que a próxima etapa, da camada de gesso, estrague a primeira camada, que não secou completamente.

Cola PVA (Cascorez)

 2. Base de Gesso (Ground)
Para se proceder ao próximo passo, é necessário que a encolagem, passo anterior, esteja completamente seca, o ideal sendo 24 horas, ou mais quando o tempo é chuvoso ou frio. A próxima etapa é uma espécie de acabamento final, usando o gesso acrílico. Achado em lojas especializadas de materiais artísticos, o gesso acrílico costuma ser diferente da “base acrílica“, dependendo do fabricante. Prefira produtos que realmente são descritos como “gesso acrílico”, essa composição é a mais indicada para telas do que a base acrílica. Marcas tradicionais de gesso acrílico nacionais são a Corfix e a Acrilex, as marcas mais novas são a Cromacolor e Paris Telas. O melhor do mercado é esse da foto abaixo, da Corfix, com a descrição “gesso acrílico para telas” e a tampa preta. Além da consistência normalmente ser a mais adequada, ele possui cargas de material fungicida. Não esqueça de agitar muito bem o gesso acrílico antes do uso, pois é comum notar que o polímero acrílico separou do gesso quando o pote ficou muito tempo parado na loja. Tenha absoluta certeza de misturar o gesso pouco antes do uso.

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Gesso Acrílico
 

É importante colocar um pouco de água misturada ao gesso, aproximadamente 20 ou 30%. Isso fará com que o gesso seja nivelado melhor na superfície, para que não apareçam as marcas do pincel. Se o seu gesso acrílico está espesso em demasia, o que é normal se o material está fechado a muito tempo, a adição de água é fundamental. A consistência “normal” do gesso acrílico é mais ou menos a de um “requeijão” um pouco mais rígido, embora diferentes marcas mostrem consistências diferentes. A espessura da demão deve ser mediana para fina, e nunca grossa. Por outro lado, uma demão extremamente fina pode não cobrir de modo satisfatório a textura da tela. Portanto, dependendo da espessura da demão, as vezes é necessário aplicar um reforço, uma segunda demão, para cobrir mais o suporte. A demão não pode ser muito grossa pois ela além de demorar demasiadamente a secar, pode rachar, portanto, é sempre melhor duas demãos moderadas ou finas do que uma única camada muito grossa. Quando o artista usa camadas muito grossas ou faz uso de camadas em excesso, cria-se uma superfície muito lisa na tela, o que não é bom para assegurar aderência da tinta. Portanto, apesar de um dos objetivos da preparação ser que os poros muito aparentes sejam minimizados com a adição da encolagem e depois com a aplicação do gesso, é imperativo que os poros não sumam completamente. Uma superfície excessivamente lisa pode gerar rachaduras.

As vezes a aplicação de gesso deixa marcas excessivas de pincelada. Se a trincha de cerdas brancas deixar o gesso muito marcado, o gesso pode estar muito grosso, portanto precisa de mais água. Pode ser o caso do artista ter carregado demais a trincha e não ter pressionado com a força adequada para aplicar. Quando se aplica de modo muito superficial, sem “apertar” a trincha, a camada pode ser espessa demais e então deixa marcas na superfície. Além disso, é sempre melhor usar uma trincha com cerdas mais macias.

É super importante que a primeira etapa, a encolagem de cola PVA, esteja 100% seca antes que se aplique a primeira camada de gesso acrílico. O mesmo deve ser dito caso o artista decida aplicar mais de uma demão de gesso: se alguma das camadas de gesso não estiver completamente seca, a última camada irá rachar ou apresentar micro-craqueluras. Portanto, tenha absoluta certeza de que cada camada esteja totalmente seca.

Outro ponto importantíssimo é que o suporte deve permanecer na horizontal enquanto o gesso acrílico seca, num local longe de poeira e se possível, numa área arejada. Nunca faça uso de secadores de cabelo, assim como deixar a tela debaixo do sol ou qualquer outro método para tentar acelerar a evaporação e a secagem do material, isso acaba deixando estrias no gesso ou craquelando. É imperativo deixar que tudo seque de forma natural.

Para resultados a prova de erros, o ideal é que se faça com calma e tempo suficiente para secagem completa, esperando pelo menos uma hora entre as demãos em dias de temperatura mediana/quente e de muitas horas em dias de frio, mas esses parâmetros de tempo de secagem podem mudar drasticamente dependendo da espessura da camada usada. Uma camada com gesso em excesso demora consideravalmente mais para secar do que uma camada fina. O ideal de fato, é ter tempo e paciência, fazendo uma camada num dia e deixando que seque durante toda a noite. 24 ou até 48 horas são bons parâmetros, independente da temperatura: quanto mais se espera a secagem, melhor.

2.1. Dando “cor” a Tela (Imprimatura Acrílica)
É necessário dar um acabamento “colorido” a tela com o intuito de retirar o branco original, criando um meio-tom geral. Essa cor inicial que se dá a tela é chamada de imprimatura e pode ser feita de duas maneiras diferentes.

A primeira maneira, mais prática e rápida, é dar uma demão de tinta acrílica, após o gesso ter secado completamente. Não é necessário aguar a tinta acrílica, ela pode ser aplicada pura sobre a tela e arrastada com um pincel, ou até um pano velho, para que a camada de tinta fique bem fina. Excesso de tinta acrílica pode demorar para secar, além de deixar marcas de pincelada, portanto não use tinta em demasia. O segundo método, mais demorado, mas com um resultado mais homogêneo, é colocar tinta acrílica misturada ao gesso para que o mesmo fique cinza ou com a cor que escolher.

Se o artista desejar pintar um exercício preto e branco, basta colocar um pouco de tinta acrílica preto e branca no gesso, misturar bem e aplicar na tela. Ou, aplicar a tinta acrílica cinza por cima do gesso depois que o mesmo estiver seco. O valor do cinza deve ser parecido ao valor número 5 ou 4 na escala neutra de Munsell, como observado na imagem abaixo:

munsell gray
2.1.1. Imprimatura Colorida
As cores a serem usadas numa imprimatura podem ser das mais variadas. Abaixo, seguem as cores ou misturas necessárias de cada imprimatura relativa a cada um de nossos cursos

PINTURA CLÁSSICA: Exercícios iniciais preto e branco (quatro primeiros) – Cinza (5 ou 4 na Escala Munsell)
PINTURA CLÁSSICA: Exercícios coloridos – Amarelo Ocre (40%) + Siena Queimada (Aprox. 60%) a mistura resultará num laranja terroso. Para alguns exercícios, a cor será o Siena Queimada puro (da Corfix, que funciona como um Red Ocher). Se você não tem certeza do que fará, use a primeira mistura (amarelo ocre + siena queimada).

PINTURA CONTEMPORÂNEA: Amarelo Ocre + Branco de Titânio (Aprox. 10%)

CURSOS DE FÉRIAS:
INTENSIVO – PINTURA CLÁSSICA: Siena Queimada (pura)
INTENSIVO – IMPRESSIONISMO: Amarelo Ocre + Branco de Titânio (Aprox. 10%)
INTENSIVO – SKETCHES DE PAISAGEM: Amarelo Ocre + Branco de Titânio (Aprox. 10%)

Observe a imagem A (abaixo). Essas imprimaturas coloridas foram feitas com tinta acrílica na cor siena queimada. Não ficaram ruins, podem até serem usadas, mas ficaram mais transparentes do que o ideal, poderiam ter recebido um pouco mais de tinta.


                                A

Ambas telas da imagem B, principalmente a tela com a legenda B1, recebeu uma quantidade de tinta um pouco mais carregada, fazendo a cor siena queimada aparecer de forma mais forte. A artista deixou tudo mais pincelado e esse acúmulo faz a cor aparecer mais. Na tela B2, a artista usou um pano ou trapo velho para retirar suavemente a tinta, amaciando as pinceladas e assim tornando a aplicação mais transparente e mais uniforme. Não use papel para essa aplicação, ele desmancha e se desintegra, o tecido além de não soltar pedaços, tem um poder maior de absorver a tinta.

  
                B1                             B2

Todos os resultados das imagens acima poderiam ser usados, mas tenha em mente duas regras importantes:
a) VALOR (luminosidade): Não deixe a “cor” muito escura ou muito clara, ela deve ser um “meio-tom“. Os resultados da imagem B são mais adequados que da A.
b) TEXTURA (pincelada): Ficar mais pincelado ou mais uniforme dependerá do tipo de pintura que você fará, se você não tem certeza, tente deixar no “meio do caminho“, nem muito pincelado, nem muito macio (algo entre B1 e B2).


2.1.2. Imprimatura a Óleo: Opcional

Também é possível fazer uma imprimatura a óleo, o processo é simples: literalmente, se aplica uma demão de tinta a óleo por cima da base de gesso acrílico depois que essa estiver completamente seca. Mas lembre-se que essa imprimatura a óleo levará muito mais tempo a secar do que a imprimatura feita com tinta acrílica, geralmente entre dois e cinco dias, dependendo da quantidade de tinta óleo que se aplica e também é possível observar alguma variação no tempo de secagem dependendo da temperatura ambiente e da humidade (dias frios e chuvosos). Colocar um pouco de solvente, como a terebintina ou eco-solv pode ajudar no sentido de que a camada de tinta não fique muito grossa e dê maior fluidez na apliação.

É importante notar que o resultado de uma imprimatura feita a óleo produz uma superfície muito superior para se trabalhar do que a imprimatura feita com tinta acrílica, o suporte se torna menos absorvente, deixando as pinceladas mais aparentes, além de ser uma superfície mais sedosa para o deslizar da tinta. Portanto, apesar de ser mais demorada para secar, pode valer a pena por sua qualidade superior. É possível adicionar um pouco de secante a tinta para acelerar sua secagem, usando produtos como o Oil Gel Secante (Acrilex) ou Liquin Original (Winsor & Newton) na tinta a óleo a ser usada para acelerar a secagem dessa imprimatura a óleo. Evite fazer uso de outros tipos de secantes. Uma quantidade segura de secante é algo em torno de 15% ou 10%, bem misturado a tinta, nunca mais do que isso.  

3. Método Moderno vs Tradicionais
Como discutido anteriormente, o método descrito aqui tem o intuito de ser mais prático do que o tradicional. Se você deseja um método histórico e mais tradicional, leia nossos outros artigos sobre painéis e bases, que ensinam como fazer uma base verdadeiramente tradicional, além de nosso artigo de como fazer cola de proteína. É importante salientar, mais uma vez, que os materiais usados nos métodos tradicionais são mais difíceis de se encontrar e sua preparação além de mais complexa é mais cara e demorada.

4. Por que minha Tela Craquelou?
4.1. Tempo Insuficiente para Secagem entre Camadas
A causa mais comum de rachamento na base é geralmente quando o artista não espera tempo suficiente de secagem entre as camadas. A cola não teve tempo de secar completamente e já recebe uma camada de gesso por cima. Também ocorre o mesmo quando o artista aplica mais de uma camada de gesso e não espera a anterior secar completamente. Deixe sempre que as camadas sequem completamente, sobretudo quando o tempo estiver frio ou úmido. Como explicado anteriormente, numa temperatura amena, pelo menos 24 horas, sendo o ideal 48 horas ou mais. No frio, esse tempo deve ser maior.

4.2. Quantidade ou Espessura Inadequadas das Camadas

A segunda causa mais comum é a aplicação de camadas em excesso. Quando o artista faz uso de muitas camadas de cola ou de gesso, a sucessão de camadas no topo vai impedindo cada vez mais que as de baixo respirem e assim sequem adequadamente. Portanto uma regra de ouro é a economia de etapas e camadas. Quanto menos camadas, menos chance das coisas darem errado

Outra causa comum de rachamento é a aplicação de camadas de cola ou gesso grossas demais. Nesse caso, a camada demora em demasia para secar e geralmente seca de maneira inadequada, secando mais rápido na superfície e permanecendo macia na parte de “dentro”, isso pode provocar um encolhimento excessivo da superfície e consequentemente, um rachamento ou micro-fissuras. O ideal é que a camada seja de espessura média para fina. A combinação de poucas camadas e de espessuras finas é sempre ideal.

Finalmente, também é comum o aparecimento de craquelamento e micro-rachaduras quando a camada é excessivamente fina, ou aguada demais. O filme formado dessas aplicações é tão frágil e com tão pouco poder de cobertura, que a tensão superfícial da tela acaba por repelír a camada, que não tem poder de cobrir tudo e acaba por se romper, abrindo fissuras largas.

4.3. Uso de Secador ou Secagem Diretamente ao Sol
Quando se usa secador ou quando se coloca a tela diretamente ao sol, as camadas costumam rachar em diversas áreas. Deixe que as camadas sequem de modo natural

4.4. Base Acrílica para Artesanato
Também é possível estabelecer alguma relação entre as craqueluras e o uso de base acrílica para artesanato, enquanto se observa menor quantidade de casos quando usado o gesso acrílico para telas. Portanto, evite o uso desse material, dando preferência ao gesso acrílico para telas.

5. Reaproveitar a Tela com Craqueluras
Se sua base rachou ou apresentou micro-fissuras, descarte-a e use uma nova. Aplicar novas camadas de gesso não sanará o problema, as rachaduras voltarão a aparecer e ficarão maiores com o tempo. 

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BIBLIOGRAFIA
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
MITRA; Gamblin PVA Size; in: https://www.artcons.udel.edu/mitra/forums/question?QID=358, 2017.
MITRA; Oil Paint Directly on top of PVA Size; in: https://www.artcons.udel.edu/mitra/forums/question?QID=779, 2020.

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