Preparo de Cola Animal (Proteína)

As colas de proteína animal eram são usadas desde a antiguidade clássica na pintura, portanto, compreendem materiais tipicamente tradicionais. Para aqueles que preferem seguir protocolos mais tradicionais dentro da pintura ao invés do uso de materiais mais modernos e praticos, é importante entender como fazer adequadamente a cola de proteína. Ela é chamada de cola de pele de coelho, pele de carneiro, coqueiro ou de peixe, assim como as variantes mais raras “bone glue” ou “pearl glue“, e em quaisquer um desses casos, é necessário seguir alguns procedimentos que serão apontados aqui. 

Se você não tem experiência com materiais tradicionais de pintura, não recomendamos o uso da cola de proteína. A fatura desse material é complexa e o resultado da cola varia grandemente dependendo da qualidade do material e da maneira como a cola foi feita. Se a cola estiver muito fraca ou se ela estiver muito forte, em ambos os casos, o artista pode ter problemas quanto a integridade física de sua obra, rachando a superficie do suporte.

Portanto, tenha em mente que mesmo artistas experientes costumam ter problemas com essa cola. O ideal é sempre testar a cola que foi comprada fazendo um painel pequeno antes de usá-la para fazer o painel que será usado para trabalhar. Isso é necessário pois nunca se sabe a força da cola que foi comprada. 

Lembramos que todo tipo de procedimento que envolva tesouras, facas, aquecimento e materiais que possam colocar sua integridade física em risco devem ser feitos sempre com o máximo de cautela e atenção. Cuidado ao usar fogões, tesouras, facas e objetos perigosos.

1. Cortando em pedaços
Se a sua cola estiver em forma de “placa”, é melhor cortá-la em pequenos pedaços com uma faca. Se a sua cola já foi adquirida em pequenos pedaços, em forma de pó, ou em forma de pequenos tubos, ela está pronta para ser hidratada.

2. Hidratação
A cola é produzida pela indústria através da hidrólise, portanto, ela absorverá rapidamente a água onde deverá ficar submersa para ser aquecida. Arranje um pote refratário ou de acabamento liso, suficiente para a quantidade de cola que pretende usar. Na maioria das receitas tradicionais, pede-se que a cola decanse por pelo menos uma noite em água filtrada, para que ela absorva a água. A cola demora a começar inchar, principalmente a de pele de coelho, levando pelo menos 24 horas para absorver por completo. A cola coqueiro costuma absorver mais rapidamente.

Hidratação

 

No entanto, não é necessário esperar tanto tempo (24 horas). Cerca de duas horas é suficiente para que ela absorva um pouco. Na verdade, por diversas vezes preparei a cola despejando diretamente os grãnulos de cola diretamente em água morna, misturando lentamente com uma pequena colher, e em minutos obtive uma cola morna, totalmente dissolvida e pronta para o uso. Dessa maneira, o “descanso” da cola em água de temperatura ambiente pode ser opcional.

Para os puristas, ou para aqueles que dispoem de tempo, o descanso, ou hidratação prolongada, de fato faz com que a cola absorva água suficiente para inchar até 5 ou 6 vezes seu tamanho original, e então dissolva em poucos segundos quando levada ao fogo, mais rápido do que a cola que não descansou tanto tempo préviamente.

 

Após 2 e 2 h


Talvez o descanso de 24 horas resulte num produto de maior durabilidade, no entanto, não há estudos científicos que provem isso. Confesso notar pouca diferença expressiva no produto resultante de ambos feitios, no entanto, há diferença. A cola que descansou as 24 horas em água de temperatura ambiente parece apresentar mais volume e corpo do que a aquela que foi despejada diretamente em água morna sem descanso, resultando numa cola mais “cremosa”. Quando disponho de tempo suficiente, costumo deixá-la descansando de um dia para outro, cobrindo o pote com um pano para que não tome poeira.

Após 24 h


3. Consistência e Força
A consistência da cola dependerá de alguns fatores: a quantidade de colágeno encontrada na cola, a quantidade de água usada na receita e a quantidade de água que evaporou (se perdeu) durante o aquecimento. Não há como medir quanto colágeno há numa cola sem que o fabricante forneça a informação de quantas “gramas bloom” possui o produto (para entender mais, veja o post sobre colas).

É extremamente importante que antes de usar uma receita de cola, o artista faça um teste para entender a força do material. É muito comum que bases feitas com esse tipo de material animal rachem ou apresentem pequenas fissuras. Isso acontece devido a cola estar muito forte ou muito fraca.

A única maneira de entender a “força” ou viscosidade da cola adquirida com determinada receita é testando-a pelo menos uma ou duas vezes, e então teremos uma idéia de qual o resultado em viscosidade e força a cola possui com aquela determinada receita.

4. Proporções
O segredo para atingir uma consistência ideal é a quantidade de água e cola, ou, sua proporção. Massey e Motta sugerem em torno de 10 partes de água para 1 parte de cola, Doerner recomenda 70 gr. de cola para 1000 ml de água, Mayer sugere 75 gr. e 900 ml de água, outras receitas apresentam pequenas variações, mas é seguro afirmar que a proporção 10/1 é o padrão de uma receita confiável. É importante seguir esse padrão: Uma cola muito forte pode rachar ou craquelar a base de gesso que foi feita com a mesma em sua mistura, e em alguns casos, pode até deformar a placa de madeira do suporte. A cola muito fraca pode não conseguir “ligar” o gesso e resultar numa superfície porosa ou arenosa.

 

Colher medidora


Para evitar que parte da água seja evaporada durante o aquecimento, e que a cola fique muito grossa, usaremos 7 partes de água para deixar a cola descansando, e colocaremos as 3 partes restantes ao término do aquecimento. É importante usar um medidor para ter certeza de que as partes são iguais.

5. Aquecimento
Coloque o pote refratário onde a cola descansada se encontra dentro de uma outra panela grande, com um pouco de água dentro da nova panela. Com o fogo bem baixo, iremos aquecer lentamente a cola em banho maria. Também é possível usar uma panela elétrica ou um “coleiro” (panela especial para aquecimento de cola), embora nunca tenha encontrado tal ferramenta a disposição para venda. Mexa a mistura lentamente, com uma colher de pau, tendo certeza de que os grânulos de cola prendidos ao fundo do pote estão se soltando.

 

Banho maria


O aquecimento deve sempre ser muito brando, se necessário, desligue o fogo para que a mistura não aqueça em demasia e torne a ligá-lo quando achar necessário. A cola estará pronta quando completamente dissolvida. Com a colher, retire um pouco de cola do fundo do pote, e deixe escorrer pela colher a alguns centímetros do pote para observar se ainda há grânulos sólidos que não se desmancharam. Quando tiver certeza de que tudo está dissolvido, adicione as três partes restantes de água, e misture bem com a colher.

6. Impurezas
Algumas colas contém impurezas que só desmancham em altas temperaturas, portanto é possível que alguns sólidos persistam mesmo depois de algum tempo de aquecimento.

7. Temperatura de Aplicação
A cola deve ser preferêncialmente aplicada enquanto morna. Alguns livros recomendam a aplicação ainda quente, no entanto, é comum encontrar relatos de artistas que experimentaram deformação de suportes de madeira devido a temperatura da cola, principalmente quando a placa não é das mais grossas. Recomendo que a cola não seja aplicada quente. Tive diversas experiências excelentes com sua aplicação ainda morna.

8. Coagem
É desejável coar a cola para retirar as impurezas e grânulos não desmanchados, pois os mesmos podem aderir ao suporte alojando-se na superfície e criando imperfeições difíceis de eliminar pelo lixamento. Faça a coagem despejando a cola através do coador para dentro de um jarro de vidro. Tome precauções para que a cola não esfrie muito durante esse processo. O jarro com resíduos da cola não coada pode ser higienizado posteriormente para futuros procedimentos como esse, no entanto tenha certeza de que qualquer resíduo de cola seja removido durante a limpeza, ou, simplesmente descarte-o.

9. Aplicação
Depois que a cola foi coada num novo pote, coloque-o dentro da panela de banho maria para aproveitar a água que ainda está quente, a mesma irá conservar a temperatura da cola no novo pote. Para aplicar a cola de modo que ela não esfrie durante a aplicação, deve-se reservar previamente o suporte a ser encolado próximo ao lugar onde a cola estiver sendo aquecida, pois dessa maneira não há necessidade de deslocar o jarro de cola, e pode-se aplicá-la rapidamente antes que esfrie.

Use sempre um pincel largo (trincha) de cerdas macias, e nunca de cerdas duras. A cola “assenta” rápido, e o pincel de cerdas duras deixa muitas marcas e sulcos. Aplique a cola em movimentos lentos, e nunca com pinceladas muito rápidas. As pinceladas rápidas tendem a criar micro-pontos onde a cola não é depositada, principalmente quando aplicamos em tecidos, deixando pequenos “buracos” no suporte.

10. Reserva e Segunda Demão
Ao término da aplicação, feche o jarro da cola e espere que ela esfrie por completo, reserve-a na geladeira (não reserver no freezer), deixe o suporte decansar numa área sem poeira e longe do sol. Se necessário uma segunda demão, tire a cola da geladeira 30 minutos antes da aplicação, coloque mais uma parte de água caso tenha se passado muitas horas ou dias entre a primeira e a segunda aplicação, aqueça-a novamente da mesma maneira, aplique a segunda demão e repita o processo quantas vezes for necessário.

A cola costuma durar pelo menos uma semana e meia reservada na geladeira, devidamente coberta com filme PVC transparente (Magiplack). Nunca use cola que tenha passado muito tempo reservada (três semanas a um mês), ainda mais quando apresentar mau cheiro acentuado, sempre prefira prepará-la fresca, no dia da aplicação.

11. Uso e Funções
A cola animal pode ser usada para fazer a mistura “base” que cobrirá o suporte encolado, encolar telas já esticadas de qualquer tecido ou painéis de madeira (devidamente cobertos com tecido). Recomenda-se não encolar tecidos que ainda não foram esticados no chassi (para telas), pois a ação de esticar pode forçar a cola e causar futuros rompimentos devido a movimentação exagerada do tecido.

Acertar a força da cola para a base não é fácil e necessita de alguns testes prévios. É comum que os artistas acabem rachando os suportes quando tentam fazer a base tradicional usando cola animal. É muito importante que o artista faça testes prévios com a cola antes de aplicar a base sobre os painéis que usará para pintar. Se você não tem experiência com esses materiais e não tem paciência de fazer adequadamente os testes, recomendamos que não tente fazer base tradicional em casa, use gesso acrílico ou alguma outra forma de base mais moderna.

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BIBLIOGRAFIA RESUMIDA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
GOTTSENGEN, Mark David; Painters Handbook; Watson-Guptill; 2006.
MITRA; Materials Information & Technical Resources for Artists; 2020.  

25 Comments

  1. Olá Marcio, eu já vi artistas prepararem suas telas diretamente com a base sem antes encolar o tecido, isso é um procedimento válido também ou pode ser perigoso? Essa base era composta por cola de pele de coelho, óleo de linhaça e pigmento branco de titâneo. Se isso for comum, o mesmo vale para gesso acrílico?

  2. Marcos, a encolagem na verdade funciona como uma \”segunda\” garantia (a primeira é a base) de que o óleo contido na tinta não chegará até os fios do tecido. Uma base oleosa diretamente na tela não é exatamente o melhor, contrariando a lógica de proteger o tecido. Mas a prática é comumente usada e em muitos casos pode não afetar o tecido, sem garantias. Pessoalmente, prefiro não arriscar. Grande abraço!

  3. O gesso acrílico é completamente diferente, compreendendo um material muito menos agressivo ao tecido do que uma base oleosa como descreveu antes. No caso do gesso acrílico, a necessidade de uma encolagem é menor ainda.

  4. Obrigado por esclarecer as dúvidas não só minhas mas de todos. O seu blog é uma referência e um instrumento de pesquisa para o artista. Parabéns e um grande abraço!

  5. Bom dia, notei que no item referente a proporções de cola e água há um erro na referência à diluição da cola \”70 gr. de cola para 1000 Litros de água\”, o certo seria 1000 ml ou simplesmente 1 litro. Feliz em colaborar.

  6. Boa tarde Marcio, estou pintando a oleo em telas de linho, gostaria de saber se alem da cola de coelho, tem algum primer existente e que seja transparente, para telas de linho? Vi no site da Winsor & Newton \”Oil Painting Primer\”, mas nao consegui ter a informacao se o efeito e transparente. Voce sabe se fica branco apos a aplicacao? Abracos. Pia

  7. Pia, o oil primer da W&N não fica transparente. Minha sugestão é que voce use cola cascorez, tambem chamada PVA diluida com um pouco de agua. A cola sela o linho e age como um primer que isola a tela das camadas subsequentes de tinta. A vantagem é que a cola fica praticamente transparente depois de seca. Faça um teste num pedaço pequeno de linho e veja se gosta. Abraço!

  8. olá gostei muito de sua postagem, eu tenho que usar esta cola de colágeno, mas preciso dela mais liquida , se por ventura eu usar formol como conservante ela vai durar mais tempo ou o formol ou outro conservante pode alterar o produto ?

  9. Caro Araújo, eu nunca usei formol para isso. Usei algumas vezes, um fungicida em pó, que pode ser encontrado em lojas de materiais artisticos especializadas, como a Casa do Artista e a Casa do Restaurador. Acredito ser um produto mais indicado do que o formol.

  10. Olá parabéns pelo trabalho.Quais os riscos de se fazer o processo da cola e gesso sobre compensado na pintura a têmpera de ovo? Digo, sem colocar linho antes.Abraço!

  11. Olá Rafael. Essas bases ficam ainda mais seguras quaando usadas num suporte rígido e não precisam necessariamente da adição do linho. É inclusive bem comum o uso de uma base sem o tecido. Grande abraço!

  12. Obrigado pela resposta!Estou preparando minha cola de pele de coelho e segui a proporção de 1 para 10. Mas estou achando muito líquida, esperava algo mais viscoso… É assim mesmo?

  13. O correto é voce fazer a cola 1/10 e esperar ela esfriar de um dia para o outro. Ela irá solidificar como gelatina, depois disso, quebre-a, adicione um pouco de água e coloque em banho maria para dissolver. Esse é o método correto. Verá que não fica líquida.

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