Mediums Improváveis

É sempre interessante ficar atento as publicações mais recentes do campo da restauração e do estudo dos materiais de pintura, pois é somente dessa forma que podemos entender como a ciência tem ajudado os pesquisadores ao fornecer dados empíricos sobre as verdades e mentiras dos materiais de pintura. Alguns professores, artistas e profissionais tendem a se apegar a “verdades” ditas na ápoca em que estudaram. Por isso estudar sempre, é muito importante.

O profissional que para de estudar perde a oportunidade de entender as mudanças de opiniões de estudiosos de renome, instituições e museus. Estar afinado com pesquisas recentes pode evitar desastres e muita perda de tempo, além de evitar que professores e instrutores de pintura continuem a transmitir dados que ontem eram corretos, mas que hoje, compreendem um equívoco.

Uma rápida pesquisa na Internet resulta em alguns textos alarmantes, com receitas e informações que se baseiam totalmente em pressupostos sem nenhum fundamento científico. Podemos encontrar vídeos e textos em português com receitas de mediums e técnicas atribuídos a diferentes escolas ou artistas mas que não se tratam das técnicas ou dos materiais usados pelos mesmos.

Algumas receitas de medium chegam a ser nocivas para a pintura, beirando o absurdo. Como um dos muitos exemplos, uma receita que sugere a adição de 30% de secante de cobalto no medium, uma proporção de secante exageradamente maior do que o recomendado. A adição de tanto secante irá resultar num medium que gruda o pincel em qualquer lugar, e seca tão rápido que seria impossível pintar dessa maneira. Numa outra página, vende-se um medium atribuido aos “melhores mestres Renascentistas” sendo que todos os estudos de obras do período não apontam para o uso de um material parecido com o material vendido em tal página. Esses são apenas alguns exemplos.

1. Internet: Cuidado com as Informações
Outro exemplo de desinformação encontrado na web, é uma “receita” para um “medium para natureza morta” atribuído a “Caravaggio”. Além do fato de que, se voce realmente pesquisar, saberá que não há como provar qual medium o pintor fez uso pois não há nenhum texto que afirme tal material, novamente, uma quantidade exagerada de resina, resultando num medium grudento, com mobilidade limitada. É muito óbvio que Caravaggio nunca poderia ter feito uso de algo tão inadequado.

Aparentemente, são muito populares na internt, em videos e texto. Elas atraem artistas que muitas vezes pensam que os fará pintar como Caravaggio. Para pintar num estilo semelhante ao de Caravaggio, deve-se estar atento principalmente a luz e sombra, as cores usadas na paleta do artista e ao uso de técnica indireta, o medium nesse caso, pode não fazer diferença. De fato, pode-se simular seu estilo sem usar medium ou usando qualquer outra receita. No fundo, todo mundo sabe que isso não faz sentido, mas esse tipo de informação atrai “likes” e atenção. O problema é que quase sempre as receitas não possuem fundamento.

Exemplificando a problemática: essa mesma receita sugere o uso de verniz cristal. Nunca se identificou resina nas obras de Caravaggio, embora isso seja uma possibilidade. Além disso, o verniz cristal é um produto moderno, geralmente feito a base de alguma resina sintética de terceira categoria que não possui boa permanência. Se Caravaggio tivesse usado resina, seria alguma resina de pinácea, com comportamento diferente desse verniz sintético. Essa é uma atribuição claramente infundada.

oO Youtube conta com uma infinidade de videos em português que mostram “as técnicas dos Velhos Mestres” mas que na verdade são técnicas da virada do século. Demonstrações de como determinado pintor em particular trabalhava, mas que apresenta uma técnica imaginada pelo apresentador, ou pior, baseado em livrocom informações absolutamente desatualizadas sobre aquele técnica. As receitas de mediums improváveis segue o mesmo caminho.

Aparentemente, há um certo fascínio com mediums em gel e outros materiais que teoricamente teriam sido usados na antiguidade. Vamos analisar um pouco esse assunto.

2. As Formulas de Gel Medium
Há algumas receitas em inglês, e poucas em português, de mediums que apresentam forma de gel. Uma pesquisa mais profunda revelará a qualquer pesquisador que essa “moda” começou a partir das receitas formuladas por Jacques Maroger, um francês diretor técnico do Louvre, durante os anos 30. O problema é que quase tudo que Maroger pesquisou e escreveu foi feito sem método científico ou provas contundentes, na verdade, baseado naquilo que foi “observado” nas telas. A pesquisa de Claude Yvel parece ser uma continuação ou extensão da pesquisa anterior, pois os mesmos elementos continuam presentes nas formulações de seu gel. Esses artistas tinham a opinião de que os pintores do renascimento usavam um medium em forma de gel, e várias concatenações dessa receita podem ser encontradas na internet, principalmente no mercado norte americano, a maioria, levando um óleo vegetal cozido (algumas receitas levam linhaça, outras levam nozes) em litargírio, associado a alguma resina natural (geralmante mastíque). É possível encontrar em inúmeras referências da escola francesa uma certa preferência pelas resinas e por esse medium em gel, essas publicações acabaram fazendo escola.

No entanto, há uma outra pesquisa, mais recente, que analisa o uso de mediums da antiguidade de modo correto, através de análises científicas, baseada em provas químicas. Veremos a seguir, trecho de um fabuloso e recente estudo da instituição líder em formar opiniões, a respeitada National Gallery:

O aglutinante usado por Raphael na \”Madonna de Ansidei\” foi revelado usando a técnica de cromatografia auxiliada pela espectrometria de massa (GC-MS). Isso mostrou que o quadro foi executado com vários pigmentos, usando óleo de nozes.

Um segundo estudo de uma outra obra de Raffaello:

…confirmada a presença do pigmento amarelo de chumbo e identificado como seu aglutinante óleo de nozes aquecido…

Outro estudo, da mesma instituição, dessa vez da obra do artista Francesco Francia.

As análises do aglutinante da tinta (binding medium) mostrou o uso de óleo de nozes aquecido, descoberta perfeitamente condizente a uma obra pintada em 1490 de origem italiana.

Ainda outro estudo, de uma pintura do mestre Veronese, novamente pela National Gallery:

O aglutinante foi identificado como óleo de nozes.

Tanto Raffaello, Francia e Veronese, quanto provavelmente a grande maioria dos pintores italianos faziam uso de formulas muito simples, sem complicações, como o uso de somente um tipo de óleo vegetal (provavelmente linhaça, ocasionalmente nóz). Portanto, isso refuta as hipóteses de Yvel e Maroger de que os artistas renascentistas usavam um medium em gel.

Essas receitas atribuídas a escolas antigas são variações de outras idéias de livros ou manuais de pintura escritos em épocas onde não haviam tantos métodos científicos, entre as décadas de 20 e 40. Os especialistas em materiais de pintura dessa época eram artistas obrigados a sustentar suas pesquisas e conclusões baseados naquilo que tinham disponível: o conhecimento adquirido apenas pela observação in loco de certas pinturas, manuais de pintura antigos, e nunca através de testes científicos de nível químico ou molecular. De fato, alguns desses autores de manuais de pintura fez o melhor trabalho possível para sua época. Mas os restauradores, museus e instituições só começaram a fazer análises químicas precisas após a década de 70.

Hoje, há a opinião de que mediums muito excêntricos feitos com receitas complexas podem não somente apresentarem riscos a conservação de obras como também podem constituir uma perda de tempo em seu preparo. Isso parte da premissa que quanto mais variantes temos numa equação, maiores são nossas chances de erro, e o mesmo acontece quando tratamos sobre mediums. Com os estudos modernos, cada vez mais chegamos a conclusão que os grandes artistas usavam materiais muito simples. Nada substitui esses procedimentos sem complicações, assim como a habilidade e o talento. Não é necessário muita coisa para se obter um medium eficaz para diversas técnicas de pintura.

É claro que ainda há a questão do gosto pessoal. Alguns artistas simplesmente gostam de pintar com esses mediums complexos, atribuidos as escolas antigas, mesmo que hoje possamos encontrar fatos empíricos que nos provam o contrário. O uso abusivo desses mediums podem escurecer, craquelar ou descolar do suporte com o tempo, se usamos resina em abundância.

Muitas dessas receitas podem se passar, para aqueles que não tiveram acesso a estudos mais recentes, por miraculosos segredos perdidos, quando de fato, são restos arqueológicos “decifrados” numa época em que a ciência não poderia ajudar muito. Por isso é importante, quando deseja-se descobrir mais sobre o assunto, tentar ler os artigos mais recentes possíveis. Os arquivos da Molart são excelentes, assim como os boletins da National Gallery, os artigos da Jaic e da AIC Restauration Institute, entre outros. E não para por aí. Artistas do mundo todo possuem páginas espetaculares relacionadas ao estudo dos materiais e seu uso.

Nos textos que encontrei na web percebi que algumas receitas são variações traduzidas de alguns livros populares entre os artistas da década de 50, um deles, escrito por Jacques Maroger, chefe do departamento de restauração do Louvre. Pessoalmente, tenho a opinião de que a França apresenta muito estudos que se embrenharam em caminhos tortuosos e excêntricos na procura dos “segredos perdidos”. A publicação de Maroger, grande responsável pelos caminhos tortuosos, possui receitas de mediums amplamente usadas por seus contemporâneos, na esperança de simular os efeitos e a qualidade dos Velhos Mestres. No entanto, sabemos que algumas das pinturas efetuadas a partir dessas receitas não perduraram ao tempo (faça uma pesquisa sobre o estado das pinturas de Sir Joshua Reynolds). Também sabemos que muitas das conclusões feitas por Maroger estavam equivocadas. Essas receitas levam ingredientes que podem amarelar e craquelar a pintura em pouco tempo. Michael Skalka, chefe do Departamento de Restauração da National Gallery of Art de Washington, entre outros estudiosos, comenta:

A pintura a óleo já é suscetivel a tornar-se quebradiça, amarelar, rachar e descascar até mesmo sob as melhores condições. Com a introdução de resinas naturais ela se tornará ainda mais quebradiça, amarela do que tinta óleo pura, promovendo o aumento de rachaduras e descascagem. Secantes metálicos só tornarão pior todas as aflições mencionadas.

Isso pode ser notável quando há o uso em abundância dos mediums gelatinosos como as variações do Megilp, Maroger, e outras concatenações em forma de gel, onde a combinação de uma resina natural (mastique) e secantes metálicos (chumbo) interagem. Pouca adição de somente uma resina natural não é tão alarmante.

Insisto em dizer que não tiro o mérito dos pesquisadores franceses ou de outros como Eastlake, Doerner, Thompson ou Stout, mas quero chamar a atenção para um fato irrefutável: apesar de toda a experiência em pintura desses distintos profissionais, não haviam métodos científicos que pudessem corroborar com suas pesquisas e guiá-los por caminhos que serviriam como um método válido. O único respaldo que tinham, era a aplicação de diversos materiais diferentes, na tentativa de chegar a um efeito visual similar a de certos pintores, e constatar visualmente, se conseguiram chegar perto ou não. A “prova” que apresentavam era baseada em novas pinturas feitas com o intuito de se assemelhar ao estilo dos mesmos. Hoje, através da ciência, com inúmeros testes como a spectrometria, é possível diagnosticar num pedaço de tinta seca quais são os elementos químicos que compõem aquela matéria, e chegar a resultados consideravelmente precisos, e ainda assim, não livre de erros. O que diríamos então de uma época onde até mesmo os microscópios não eram tão evoluídos assim?

3. Conclusão
Os antigos manuais de pintura são verdadeiros tesouros, leituras extremamente importantes, interessantes e necessárias, mas é sempre pertinente voltar-se para a ciência moderna em busca de pesquisas no campo químico, físico e molecular, pois somente com a ajuda dessa tecnologia podemos ter uma margem de precisão que possibilita descartar uma série de tentativas inúteis e nos apontar para caminhos verdadeiros.

Portanto, deparando-se com um video ou texto na internet, não confie de imediato, mas faça as seguintes perguntas: Existem estudos científicos sobre esse material? O que eles dizem? Também é importante não fazer uso de estudos muito antigos, veja quando foram feitos estes estudos e tente atualizar sua base de dados.

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BIBLIOGRAFIA
MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970.
MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976.
DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921.
BILLINGE, Rachel. \’Recent Study of Raphael’s Early Paintings in the National Gallery, London, with Infrared Reflectography\’. Raphael’s Painting Technique: Working Practices Before Rome. Nardini Editore, 2007.
EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847.  

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